domingo, 15 de janeiro de 2012

A saída nos trilhos



O coletivo que pegou fogo dentro do Túnel da Covanca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e que, além de prejudicar o trânsito, atrasou a volta do trabalhador para casa, nos leva a refletir sobre o sistema de transportes que estamos priorizando, erroneamente, no Rio de Janeiro.

A geografia da cidade é marcada pela presença de esporões rochosos em diversos pontos, o que, ao mesmo tempo em que contribui para o visual único, marca registrada da Cidade Maravilhosa, força a existência de mais de sessenta túneis. Os maiores, Zuzu Angel, Santa Bárbara e Rebouças, são os elos entre as principais regiões da cidade. O maior problema é que, em casos de acidentes dentro dos túneis, a execução dos planos de contingência se torna muito mais complexa, acarretando atrasos. No exemplo mais recente foram necessárias quase quatro horas para retirar o veículo incendiado da galeria, que teve a parte elétrica afetada, mas até o fim da noite, as pessoas ainda enfrentavam problemas de congestionamento, levando horas para retornar do trabalho. Mesmo com o evento tendo ocorrido na Zona Oeste, a população encontrou engarrafamentos atípicos nos bairros de Zona Sul, Tijuca, Grajaú, Méier e Engenho de Dentro.

O fato reforça que é um grande equívoco insistir na matriz rodoviária como principal meio de locomoção, como tem sido feito nas últimas décadas. Em 2007, o carioca amargou horas no trânsito durante os cinco dias em que a principal ligação entre as zonas Norte e Sul da cidade ficou interditada em consequência de um deslizamento de terra no túnel Rebouças.

Nas principais capitais mundiais, o transporte sobre trilhos, que veio sendo abandonado nas últimas décadas no Rio, tem se mostrado muito mais eficiente para conduzir a população, diariamente, da Região Metropolitana para os grandes centros. A necessidade de investir em melhorias nesse tipo de transporte é essencial para que a população se sinta segura e certa de que encontrará conforto, rapidez e segurança durante o trajeto e prefira não só deixar o carro em casa, como também abandonar o consolidado hábito de efetuar deslocamentos em ônibus.

O projeto de criação dos corredores BRT (Bus Rapid Transit) foi fundamental para que o Rio de Janeiro conquistasse o Comitê Olímpico e fosse escolhido para sediar os eventos esportivos. Entretanto, apesar de ajudar a organizar o tráfego, investir em BRT é continuar priorizando o modelo do transporte sobre rodas.

Além de tornar a malha ferroviária mais ágil, a cidade deveria ampliar o alcance do metrô. A capital chilena, Santiago, por exemplo, tem menor espaço territorial e número de habitantes inferior ao Rio. Porém, a abrangência do sistema metroviário é oito vezes maior. A cidade de São Paulo, que tem região metropolitana superior à do Rio de Janeiro, possui quatro linhas de metrô e continua em processo de expansão. Na capital paulista, o metrô realmente funciona como alternativa para os engarrafamentos de São Paulo, que seriam muito piores com uma malha de metrô ineficiente.

Abandonar o foco na matriz rodoviária e voltar os investimentos para o transporte sobre trilhos é pensar no futuro livre de congestionamentos.

por AGOSTINHO GUERREIRO ,  presidente do Crea-RJ.

Artigo publicado em 07/01/2012

Fonte: O Globo
Publicada em:: 13/01/2012