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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Informativo AFPF nº 178



Cadê o Trem?

O recente protesto dos caminhoneiros contra o aumento excessivo dos combustíveis levou vários comentaristas das mídias a trazerem para o debate a questão do transporte ferroviário. Muitos afirmam que se a carga fosse por ferrovia não haveria essa paralisação, porque o custo do transporte é menor, que o trem é o modo ideal para transportar cargas por longas distâncias (entre 200 e 1.000 km), é menos sujeito a acidentes e assaltos, polui menos, etc. Os comentários também lembravam a opção dos governantes pelo modo rodoviário e o consequente abandono das ferrovias a partir dos anos 1960. Como resultado dessa escolha insana, vale lembrar a crescente estatística de mortes nas estradas: mais de 50 mil/ano. Falou-se também da eficiência do transporte ferroviário sem, contudo, apresentarem os números que o comprovem.
Vejamos alguns dados comparativos para se transportar o equivalente a seis mil toneladas de carga por mil quilômetros. Um trem precisaria de 86 vagões; pelo modo rodoviário, seriam necessárias 172 carretas; o trem consumiria 36 mil litros de diesel; os caminhões entre 90 a 100 mil litros; o espaço ocupado pelo trem seria de 1,6 km; os caminhões formariam uma fila de 3,5 km; bastaria um único maquinista para conduzir essa carga por trem, contra 172 caminhoneiros, sem contar os ajudantes.
Os mais precipitados diriam que o trem eliminaria empregos. Ledo engano: os caminhões continuariam com seu papel importante na integração dos modos, porém percorrendo distâncias menores, podendo o caminhoneiro fazer mais viagens/dia. O caminhão, graças a sua enorme mobilidade, recolheria as cargas na origem levando-as até um Centro de Distribuição-CD para serem embarcadas no trem e levadas até outro CD, onde seria transbordada novamente para os caminhões levarem-nas ao seu destino final, não muito longe do CD. Voilà!
Esse modelo de integração modal (trem+caminhão) é simples, perfeito e funciona a contento em muitos lugares do mundo desenvolvido, inclusive nos BRICs. Mas, como jabuticaba só tem no Brasil, ainda não seria possível implanta-lo, simplesmente porque no nosso modelo jabuticaba ferroviária não há capacidade (trens) disponível para transportar carga geral. No Brasil funciona a lógica do corredor de exportação para transportar commodities como minério de ferro, aço, soja, milho e outras. Mais de 85% da carga transportada por ferrovia é produzida por empresas que são acionistas das concessionárias ferroviárias, que exploram a malha desde 1996.
Traduzindo em números, o Brasil movimentou 1.656 bilhão de toneladas por km, em 2015. Deste total 1.076 bilhão (65%) foi carregado via rodoviária e o restante por outros modos, sendo apenas 20% por trilhos. Em resumo, não tem espaço na ferrovia para carga geral como alimentos, bebidas, remédios, eletro-eletrônicos, cimento, tijolo, material construção civil, móveis, automóveis, produtos químicos, combustíveis, etc.
Teoricamente, se esse modelo de integração rodo-ferroviário estivesse funcionando em proveito da sociedade, a greve desses dias não teria causado tantos impactos negativos no abastecimento, até porque, nesse modelo racional haveria trens de passageiros de média e longa distância ligando o nosso País continental e, portanto, bem menos veículos e acidentes nas estradas.
Mas, infelizmente, não há chances de mudar tão cedo, pois o governo adora esse modelo: são divisas que a ferrovia trás para engordar a Balança Comercial. Inclusive o governo quer renovar as atuais concessões da jabuticaba ferroviária por mais trinta anos. Oremos, pois, para não sermos incluídos nas estatísticas de mortes nas estradas!

 – Antonio Pastori; Mestre em economia e Pós-graduado em Engenharia Ferroviária. Coordenador do Grupo Fluminense de Preservação Ferroviária - GFPF.

INFORMATIVO AFPF Nº 179




segunda-feira, 5 de junho de 2017

MP cobra R$ 3 bi por fraudes na linha 4 do Metrô e acusa Cabral, Júlio Lopes e empreiteiras da Lava-Jato



Processo contra 30 réus aponta que fraude na obra teve grande peso na crise financeira do Estado
   
O GLOBO - POR CHICO OTAVIO E DANIEL BIASETTO - 03/05/2017

RIO - A Odebrecht criou um atalho para driblar a lei e assumir a construção da Linha 4 do Metrô do Rio sem disputar licitação. A manobra, que consistiu em comprar a participação de uma empresa no consórcio construtor, o Rio Barra, pouco mais de dois meses antes do início das obras, é uma das principais acusações da ação civil pública movida pelo Ministério Público do Estado do Rio contra 30 réus envolvidos na fraude, entre os quais o ex-governador Sérgio Cabral, o ex-secretário de Transportes Júlio Lopes e empreiteiras que participaram do consórcio.

A Odebrecht entrou no consórcio 11 anos após a licitação da obra, feita em 1998, na gestão Marcello Alencar. De acordo com a ação civil, o governo do estado, em vez de abrir uma novo processo licitatório, já que as obras estavam paradas há mais de uma década, permitiu que a empreiteira participasse da construção da Linha 4 após pagar R$ 11 milhões para participar no lugar da Constran S/A, um das três integrantes do consórcio original, ao lado da Queiróz Galvão e Trans Sistemas de Transportes S/A.

Em delação premiada, o vice-presidente da Odebrecht Benedicto Júnior contou que além de comprar a participação da Constran S.A. no consórcio vencedor da obra, por R$ 11 milhões, também foi obrigado a pagar propina ao ex-governador e para o ex-secretário estadual.

A ação pede ainda o ressarcimento do prejuízo aos acusados no valor de R$ 3,17 bilhões, além da condenação dos responsáveis pelos atos de improbidade por ilegalidades contidas e geradas pelos termos aditivos adicionados aos contratos e reparação por danos morais coletivos.

O primeiro termo aditivo dos quatro que a obras sofreu ocorreu em fevereiro de 2010, ano eleitoral, dois meses depois da troca de empresas que formavam a Concessionária Rio Barra S/A.

Os promotores identificaram problemas na mudança de traçado, na metodologia de escavação e na antecipação dos pagamentos. Também sustentam que o governo estadual aumentou o aporte de recursos, inicialmente previsto para 43% do total da obra, para 89%.

Também foi verificada nova antecipação de valores pelo Estado para compra do equipamento conhecido como "Tatuzão" e ficou registrado, por fim, sobrepreço de 675% no valor inicial da obra, aumentando o custo para o erário em quase 8 vezes, passando de R$ 1,19 bilhão na contratação original em 1998 para R$ 9,2 bilhões, em 2011.

Além de Cabral e Lopes, estão na mira do MP-RJ o ex-secretário de Transportes e deputado estadual Carlos Osorio (PSDB-RJ), o diretor da RioTrilhos, Heitor Lopes de Sousa Junior, e o subsecretário de Turismo, Luiz Carlos Velloso (ex-subsecretário estadual de Transportes na gestão de Sérgio Cabral), esses dois últimos presos no âmbito da operação “Tolypeutes", desdobramento da Lava-Jato no Rio.

- Ao lado do sentimento de revolta - muitas vezes manifestado através das multidões, ganhando as ruas no entorno da Alerj - também a repercussão criminal dos fatos associados à construção da Linha 4 demonstra, por um lado, o alto grau de reprovação social. Isso evidencia a necessidade de condenação dotada de caráter punitivo-pedagógico, para que condutas semelhantes não venham a se repetir no futuro - afirma na ação a promotora Liana Barros Cardozo.

A ação pede ainda o ressarcimento do prejuízo aos acusados no valor de R$ 3,17 bilhões, além da condenação dos responsáveis pelos atos de improbidade por ilegalidades contidas e geradas pelos termos aditivos adicionados aos contratos e reparação por danos morais coletivos.

A condenação por improbidade pode resultar na perda de bens obtidos ilicitamente, ressarcimento dos danos materiais, perda da função pública, 8 a 10 anos de suspensão de direitos. Na ação, os promotores pedem ainda, em caráter liminar, o bloqueio dos bens dos réus, o compartilhamento de provas produzidas pela Lava-Jato e a glosa dos valores ainda não pagos.

"A maior crise já vivenciada pelo Estado não teria o vulto atual sem os gastos da Linha 4, sendo reflexo direto dos fatos retratados nesta petição inicial e em outros efeitos - referentes a isenções fiscais ilegítimas, obras do Arco Metropolitano e do Maracanã - deflagrados em face do ex-governador, hoje preso preventivamente, e de colaboradores diretos", sustentam os promotores responsáveis pela ação.

O Ministério Público também menciona relatório técnico do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) para individualizar as inúmeras irregularidades cometidas no planejamento, gestão e execução do contrato da Linha 4 do metrô, durante março de 2010 a outubro de 2015.

O ex-governador é responsabilizado, ao lado do deputado federal Júlio Lopes (PP-RJ), por três dos quatro aditivos sofridos pela obra e que são alvos do processo. o quarto aditivo está na conta de Luiz Fernando Pezão e Carlos Osório (ex-secretário de obras).

A prisão do diretor da RioTrilhos, Heitor Lopes de Sousa Junior, e do subsecretário de Turismo, Luiz Carlos Velloso (ex-subsecretário estadual de Transportes na gestão de Sérgio Cabral), acabou por trazer à tona o nome do ex-secretário de Transportes Júlio Lopes ao escândalo. O GLOBO revelou que ele já é alvo de um inquérito aberto pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot no Supremo Tribunal Federal (STF).

Duas delações de executivos da Odebrecht apontam para o recebimento de propina por parte do deputado carioca. O diretor de contratos Marcos Vidigal contou à força-tarefa que Lopes pediu a participação de 0,5% sobre o valor total dos três trechos das obras da Linha 4 (Trecho Oeste, Trecho Sul e General Osório). Segundo o delator, Lopes recebeu R$ 4 milhões de 2010 a 2014.

Quando comemorou o início das obras da Linha 4 do Metrô, em janeiro de 2010, Cabral afirmou que não queria um solução fácil de engenharia, e sim um traçado que fosse atrás do consumidor. E estimou o custo total da empreitada em R$ 4 bilhões. Os recursos viriam da União, da concessionária prestadora do serviço, de empréstimos e do próprio Estado. Sete anos depois, os gastos com com a nova linha mais que dobraram.

Em seu depoimento à força-tarefa do Ministério Público Federal, o vice-presidente da Odebrecht Benedicto Júnior explica como o ex-governador influenciou e ajudou a articular o ingresso da empreiteira no consórcio.

Após a escolha da cidade como sede dos Jogos Olímpicos, em 2009, a Odebrecht jogou pesado para integrar o consórcio responsável pela construção do trecho que ligaria a Zona Sul à Barra da Tijuca, que ficar apenas no papel desde 1998 e foi reativado por conta dos eventos como a Copa de 2014 e a Olimpíada em. Para isso, a empreiteira comprou a participação de uma das empresas do grupo Queiróz Galvão - Constran S/A - por R$ 11 milhões e passou a exercer a preferência do contrato, depois de pedir para que o ex-governador intercedesse a favor da empreiteira.

Em sua delação , Benedicto diz que Cabral embolsou R$ 50,5 milhões em propina pagas por meio de caixa dois durante a implantação do projeto da Linha 4 e por diversas vezes o pressionou para discutir pagamento de 5% dos valores.

O executivo revelou ainda que, no meio da execução da obra, as construtoras que participavam do consórcio — Odebrecht, Queiroz Galvão e Carioca Engenharia — foram chamadas por Cabral. O ex-governador teria solicitado a inclusão no grupo de mais três empreiteiras: Andrade Gutierrez, OAS e Delta.

Benedicto Júnior afirmou que OAS e Andrade Gutierrez seriam bem-vindas, uma vez que a primeira era dona da concessionária Metrô Rio e a segunda é uma das empresas brasileiras com maior experiência em obras de metrô. No entanto, o consórcio resistiu à inclusão da Delta.

As obras foram iniciadas em março de 2010, pelo Trecho Oeste, enquanto que as obras do Trecho Sul só foram iniciadas em outubro de 2012. A previsão inicial de conclusão das obras e a entrada em operação da Linha 4 era o mês de junho de 2016, porém apenas a ligação entre a Barra (Jardim Oceânico) e Ipanema (Estação General Osório) entrou em operação nesta data. Atualmente a Estação Gávea tem previsão para estar concluída em janeiro de 2018 (segundo o termo aditivo nº 4). Um inquérito civil apura apura a paralisação da obra.

O MPF ressalta ainda que os consórcios, mesmo diante da situação financeira "sabidamente calamitosa", não atentaram para o aviso do TCE-RJ já em 2009, e seguiram gastando mais e mais com a construção do metrô, quando o investimento teria que ser direcionado para outras áreas.

"Assinando os Termos Aditivos a despeito da falta de Projeto Básico, coleta crível de preços atuais, estudo de viabilidade econômica e técnica e, em última análise de uma nova licitação, os réus contribuíram para o agravamento da situação financeira do Estado, fazendo com que uma conjuntura desfavorável se transformasse na maior crise da história do Rio", afirma a promotora Liana Barros Cardozo.

A Linha 4 do metrô já foi identificada pela força-tarefa da Operação Lava-Jato no Rio como fonte de propina para alimentar o suposto esquema de corrupção comandado por Cabral no estado. As revelações foram feitas por executivos das construtoras Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia, que firmaram seus acordos de colaboração antes dos funcionários da Odebrecht.

Na semana passada, O GLOBO mostrou que, antes mesmo da publicação dos editais de licitação para grandes obras urbanas no Rio de Janeiro, o então governador Sérgio Cabral definia pessoalmente a quantidade de lotes, os consórcios que ficariam com cada um, os percentuais de participação das empresas e quem seria a líder da empreitada.

No caso da linha 4 do Metrô do Rio, o projeto havia começado em 1998. Cabral não podia, portanto, definir a licitação, mas cobrou pagamentos para atender a um pedido de Benedicto. Pelas planilhas apresentadas por Benedicto, o Arco Metropolitano, o PAC das Favelas e o metrô da linha 4 renderam a Cabral pagamentos da ordem de R$ 68,6 milhões.

Antes desses três projetos, a Odebrecht já tinha repassado R$ 15 milhões para Cabral: R$ 3 milhões na época da campanha, em 2006, e R$ 12 milhões no início do mandato, após o governador eleito pedir dinheiro para cobrir dívidas. Mas, de 2007 a 2014, o total identificado por Benedicto para Cabral chega a R$ 94 milhões, associados a diversas obras, como o Maracanã.

Em novembro do ano passado, o plenário do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) reprovou as contas das obras da Linha 4 do Metrô após auditoria realizada pelo corpo técnico da casa concluir que a obra trouxe prejuízo de R$ 2,3 bilhões aos cofres públicos.

Por unanimidade, os conselheiros do TCE, aprovaram o voto do relator José Gomes Graciosa para determinar que estado e empreiteiras apresentem defesa ou devolvam R$ 1.297 bi aos cofres públicos, por irregularidades como obras previstas mas não executadas, serviços em desconformidade com as especificações contratadas e quantidade executada superior à necessidade. As empreiteiras também terão que apresentar defesa sobre R$ 1.193 bi em sobrepreço nos contratos.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Plano de mobilidade para a Copa ainda continua no papel


Apenas 18% dos 125 projetos de mobilidade urbana, como BRTs, VLTs e monotrilhos estão em operação no Brasil inteiro

A Copa do Mundo de 2014 fez pipocar Brasil afora dezenas de projetos para melhorar a mobilidade urbana das grandes cidades. Mas, dois anos depois da realização do mundial de futebol, boa parte das propostas continua no papel. De um total de 125 empreendimentos, apenas 18% foram concluídos, segundo dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) e do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Conhecidos no mercado como BRT (Ônibus de Trânsito Rápido), VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) e monotrilho, esses projetos foram alternativas à construção de metrô, mais cara e demorada. A ideia era atender a população durante o evento esportivo e deixar um legado para as cidades. Não ocorreu nenhuma coisa nem outra.
“A Copa e a Olimpíada trouxeram grande expectativa de recuperar o tempo perdido na mobilidade urbana. Mas os projetos ficaram no papel. Pouco se fez”, lamenta o presidente da NTU, Otávio Cunha.
Atualmente, há 22 empreendimentos com obras iniciadas, mas a maioria está parada. Os motivos para o fracasso do programa de mobilidade são variados, vão de erros em projetos à falta de dinheiro. No VLT de Cuiabá (MT), por exemplo, as obras estão paradas desde dezembro de 2014 por divergências entre o Estado e o consórcio construtor. Formado por empresas como CR Almeida e CAF Brasil, o grupo pede R$ 1,3 bilhão para concluir o projeto.
Mas, segundo o governo estadual, uma auditoria feita pela KPMG indicou que a necessidade de aporte é de R$ 602 milhões. O resultado da discussão foi parar na Justiça e o projeto, que já exigiu desembolsos de R$ 1,06 bilhão, parou. Diante do problema, chegou-se a cogitar a troca na modalidade de transporte, de VLT para BRT. Mas o secretário de Cidades do Estado, Eduardo Chiletto, descartou a possibilidade por causa das obras já executadas.
Enquanto o VLT exige uma base mais reforçada para instalar os trilhos, com quase um metro de profundidade de concreto, o BRT exige a construção de um corredor de ônibus. Trata-se de uma obra mais simples e, portanto, mais rápida para ser concluída. Mas não é o que se tem visto pelo País. “Estão levando muito tempo para uma obra simples e que, depois de pronta, não atende às necessidades da população”, diz Halan Moreira, vice-presidente da Brasell Gestão Empresarial, que atua no setor de mobilidade.
Alternativa. Da mesma forma que tem governo querendo trocar projetos de VLT por BRT, há quem queira desistir do BRT para fazer corredores normais. No Espírito Santo, por causa da falta de dinheiro para tocar o projeto – cujos estudos foram iniciados na gestão anterior – a alternativa é priorizar alguns trechos. “Já tínhamos garantido R$ 530 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e R$ 210 milhões de recurso próprio. Mas o projeto total exige R$ 1,8 bilhão”, diz o secretário dos Transportes e Obras Públicas do Estado, Paulo Ruy Carnelli.
Ele explica que, diante da crise econômica que assola o País e reduz a arrecadação dos Estados, a solução foi escolher alguns trechos e adotar o BRS (Ônibus de Serviço Rápido). O secretário explica que essa modalidade tem faixas preferenciais à direita e não um corredor exclusivo à esquerda como ocorre no BRT, que tem paradas elevadas para o rápido embarque e desembarque. “Essa é uma solução que não tem risco de parar. Enquanto isso, preservamos o projeto do BRT para algum outro momento.” 
Na avaliação do presidente da NTU, o maior entrave para os BRTs é a falta de dinheiro. Com Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, o governo federal colocou à disposição R$ 150 bilhões para a mobilidade urbana. O problema, afirma Cunha, é que as cidades não tinham capacidade para se endividar. Além disso, os recursos não podiam ser usados para as desapropriações, que tinham de sair dos cofres municipais. “Em alguns casos, esse gasto era quase igual ao valor do próprio projeto.”
Outro entrave é que os projetos eram desenhados sem ter como base um planejamento urbano adequado e sem conhecimento da modalidade escolhida. O BRT de Belém, por exemplo, teve de ser readequado pela administração atual por causa de erros no projeto, elaborado na gestão anterior. A Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de Belém afirma que o desenho original não previa área para ultrapassagem dos ônibus e que as estações tiveram de ser devolvidas por seguirem um modelo incompatível com o clima da cidade.
O reflexo desses erros foi o cancelamento das licitações e elaboração de novos contratos, o que atrasou a liberação de recursos e a retomada das obras. A previsão para o início de operação experimental é a primeira quinzena de julho.
No mercado, especialistas colocam em dúvida a eficácia da modalidade escolhida para a cidade já que o transporte de passageiros é muito grande. “Para atender a demanda, será necessário colocar um número grande de ônibus em intervalo muito curto”, diz Halan Moreira.
Em situações de grande demanda, as modalidades mais adequadas são o VLT e o monotrilho (sem considerar trem e metrô). “Sem contar que no BRT o número de atropelamento é alto”, afirma Rodrigo Vilaça, conselheiro da ANPTrilhos. Para ele, o VLT é uma modelagem mais econômica.
Monotrilho. Em relação aos empreendimentos de monotrilho, mais complexos e caros, poucos Estados apostaram na modalidade. Pelo último balanço do PAC, havia cinco projetos no País. Apenas a Linha 15 de São Paulo, que liga duas estações num trecho de 3 km, está em operação. A Linha 17, que vai ligar o Aeroporto de Congonhas ao Morumbi, teve as obras retomadas na semana passada. Os demais empreendimentos, em São Paulo e no resto do País, estão parados.
Para o presidente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Metrô (Aeamesp), Emiliano Affonso, independentemente da modalidade escolhida, é preciso fazer estudo de demanda antes de iniciar um projeto.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Porto do Açu inicia operações do seu terminal Multicargas, sem trens

A Prumo concluiu na última semana o primeiro carregamento de bauxita no T-MULT (Terminal Multicargas) do Porto do Açu. O navio Turquoise Ocean, da Libéria, atracou no porto no dia 12 de setembro e desembarcou no dia 22. O navio, que é do tipo handymax, foi carregado com 33 mil toneladas de bauxita, que foi exportada para a China.
Fotos: Divulgação/Prumo
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“Concluímos com sucesso a 1º operação do T-MULT. Além de ser um marco histórico para o Porto do Açu e a Prumo, ela reforça nossa capacidade de entrega e nossa mudança para a fase operacional. Com a operação do T-MULT nos tornamos a principal alternativa para o mercado do norte fluminense, além de sermos muito competitivos para cargas do Espírito Santo e Minas Gerais. O T-MULT é um novo terminal de carga geral no Rio de Janeiro”, destaca Eduardo Parente, presidente da Prumo.
A bauxita, que é da empresa Votorantim Metais, foi extraída da sua unidade em Miraí-MG e transportada por caminhões até o Porto do Açu. O produto é armazenado no pátio de estocagem do T-MULT, que possui capacidade estática de armazenamento superior a 100 mil toneladas de granéis sólidos e mais de 20 mil toneladas de carga geral.
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A movimentação entre o pátio de estocagem e o navio é feita por caçambas, que são içadas pelos guindastes do próprio navio. Depois de posicionada, a caçamba é aberta automaticamente e a bauxita descarregada no porão.
Neste 1º embarque, a produtividade (prancha de carregamento) atingiu 6 mil toneladas/dia com operação diurna, mas a previsão é que ela alcance 13 mil toneladas/dia com ritmo operacional de 24h/dia. Já a capacidade de desembarque de granéis importados deve ser de 10 mil toneladas/dia.
T-MULT
Com 2 berços instalados em 500 metros de cais, o T-MULT tem capacidade para movimentar 4 milhões de toneladas por ano (entre granéis sólidos e carga geral). Com 14,5 metros de profundidade, o terminal pode receber navios Panamax.

O parque de equipamentos do terminal contará com 2 guindastes MHC, 2 empilhadeiras de pátio, 2 moegas com capacidade nominal de 360 toneladas por hora cada e 2 balanças rodoviárias.
O parque de equipamentos do terminal contará com 2 guindastes MHC, 2 empilhadeiras de pátio, 2 moegas com capacidade nominal de 360 toneladas por hora cada e 2 balanças rodoviárias.
O contrato com a Votorantim prevê a movimentação de 300 mil toneladas por ano de bauxita e coque. No total, o T-MULT deve movimentar 2 milhões de toneladas de bauxita por ano.
Com possibilidade de expansão para 1.200 metros de cais, o TMULT também irá operar carvão, clinquer, fertilizantes, rochas ornamentais, contêineres e veículos, além de contar com acesso ferroviário no futuro.
Esta primeira operação do T-MULT, que começou a receber bauxita no final de julho, foi parte do comissionamento do terminal. Durante o embarque, foram ajustados os tempos da operação e dos equipamentos.  Cerca de 40 operadores portuários, todos moradores da região e treinados pela Prumo, participaram do 1º embarque.

Parece uma boa notícia né? Mas não é bem assim. A bauxita de Cataguazes vai seguir para o porto do Açu e não mais para SP, pelo que parece com a alta do preço da energia elétrica é melhor exportar o minério do que processar no Brasil. Se continuar a ter fluxo para São Paulo provavelmente os caminhões vão transladar a carga para a MRS em Três Rios, anteriormente a Bauxita que saia das minas de Mirai em MG e que seguia de trem da VLI/FCA até Três Rios (bitola métrica, 1,0m), lá mudava para vagões da MRS (bitola larga, 1,6m) e seguiam para a fábrica de alumínio da Votorantim na cidade de Alumínio próximo a São Paulo, agora irá de carretas. Eram duas composições diárias de 30 vagões cada uma (60 ton cada) que agora passam a seguir em cerca de 160 carretas diárias em um sentido e 160 no inverso, trafegando em estradas de mão dupla sobre terreno acidentado e cortando inúmeros núcleos urbanos.
A poluição ambiental, os danos nas estradas, os acidentes e piora das condições gerais não importam, soube que, apesar do trem ter parado no dia 31 de julho, a Votorantim se prepara para expandir ainda mais a produção da mina de Miraí, ou seja ainda mais caminhões. É o trem perdendo cada vez mais espaço, em um país sem rumo e sem governo, onde as empresas, (as grandes obviamente), fazem o que bem entendem. 

E tome-lhe pedágio nas rodovias!! Concretamente, o pedágio ajudaria a introjetar o custo de infraestrutura nas rodovias. A manutenção da CIDE no patamar mais alto beneficia os meios de transporte mais eficientes. Essas são duas bandeiras ferroviárias. São?
Há todo um grande lobby nacional para que as estradas se tornem rentáveis para seus concessionários (pedágios), que por sinal são as mesmas empreiteiras da "LavaJato" , o sustentáculo financeiro dos últimos 6 governos centrais, que por sinal sempre ameaçaram desestabilizar o País se forem apertadas com pressões políticas como agora o povo conseguiu fazer através desse juiz paranaense.
Enquanto isso, os governos seguem fazendo cortina de fumaça para disfarçar a preferência pelo oligopólio rodoviário que paga altas mesadas aos legisladores e gestores públicos para terem seus privilégios preservados, desde os anos 60.
O governo do Rio convoca a população para opinar sobre a ferrovia de transporte de carga, financiada com dinheiro federal, que ligará o Rio ao Espírito Santo (EF118), porém não há plano de reação para se evitar a transferência dessa carga por exemplo para as rodovias. Apesar de o alargamento da rota da bauxita da FCA ter sido previsto pelos estudos técnicos de acesso ao porto do Açu, a principal obra necessária para tal, o contorno ferroviário de Além Paraíba, não tem nenhuma previsão mínima para ser feito, também não foram nem citados no projeto da EF118 a ligação entre o Açu e a atual linha da FCA em Campos, ligação curta de baixo valor a ser investido e que de imediato permitiria o escoamento da bauxita para o porto de trem, apesar de essa iniciativa ser uma das possibilidades previstas no projeto da EF354.
Tal paralisia soa como uma tentativa de desviar o foco da opinião pública de cima da predominância do transporte rodoviário, e nem se trata de transporte de pessoas, o que continuará sendo monopólio das grandes empresas de ônibus. Haja visto que o ex-ministro dos transportes até 2 anos atrás era escolhido pelo ex-senador e presidente da poderosa CNT, hoje afastado por ser suspeito de corrupção.



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Informativo AFPF nº 139

Prezadas/os

Em anexo, o INFORMATIVO AFPF de maio/2015 em homenagem ao dia do Ferroviário (30/04).

Mais abaixo, reproduzi a interessantíssima recomendação do Ministério Publico Federal de Minas, que recomenda que a ANTT cancele a nefasta resolução 4.131/2013 (pouquíssimo conhecida por todos) que permite o desmonte de milhares de km de linhas férreas inativas(?) e antieconômicas(?) ora operadas(?) pela Ferrovia Centro-Atlântico. Vale a leitura.

Para quem gosta de Jornalismo Investigativo, essa Resolução é um bom aperitivo. 

Boa leitura,



MPF recomenda que ANTT anule atos que favorecem concessionária

Segundo a recomendação, agência tem privilegiado interesses privados em detrimento do patrimônio público

30/04/2015

Belo Horizonte. O Ministério Público Federal (MPF) recomendou à Diretoria-Geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) que anule a Resolução nº 4.131, expedida em 3 de julho de 2013, que autorizou a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) a desativar e devolver determinados trechos ferroviários na Malha Centro-Leste, que é operada pela empresa mediante concessão pública desde o ano de 1996.

Com base nessa resolução, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), órgão responsável pela administração dos trechos operacionais da extinta Rede Ferroviária, firmou com a FCA um termo de devolução e recebimento de trechos desvinculados da concessão, na condição e estado em que se encontram.

Para o MPF, a Resolução 4.131 já nasce de uma singularidade, que é a de devolver trechos em total desrespeito ao contrato de concessão. Mais surpreendente ainda é que a empresa devolverá trechos classificados por seus próprios critérios como economicamente viáveis, além, é claro, dos que considerou economicamente inviáveis.

Surpreendentemente, mesmo em relação a trechos considerados economicamente viáveis, a União autorizou a FCA a desmontar e retirar toda a superestrutura atualmente instalada em até 1.760 km de via férrea. A única contrapartida da empresa será o compromisso de reempregar quantidade equivalente nos segmentos que subsistirem.

De acordo com o MPF, "se os trechos são economicamente viáveis, por que permitir a desmontagem da superestrutura, ignorando-se eventuais futuras operações, como a operação de trens turísticos e regionais, além de colocar em risco um patrimônio de potencial valor histórico?"

"Além disso, o que se constata é que a resolução e os atos administrativos subsequentes à Resolução 4.131 contemplaram tão somente os interesses da concessionária, com total desrespeito ao interesse público", afirma o procurador da República Fernando Almeida Martins. "Não há qualquer demonstração dos princípios da motivação, do interesse público e da finalidade obrigatórios em todo ato administrativo".

O procurador da República alega que, na prática, o que vai ocorrer não é uma devolução de linhas férreas, mas sua destruição pura e simples. "A ANTT está autorizando uma empresa privada a colocar seus interesses à frente dos interesses do povo brasileiro".

No caso da devolução dos trechos antieconômicos, a situação não é melhor. A ANTT autorizou a FCA a empregar os recursos relativos à desativação das linhas em suas próprias operações.

"Ao invés de indenizar o patrimônio público pelos prejuízos que serão causados com a desativação de 742 km de linhas férreas que a concessionária não deseja operar nem manter, ela é beneficiada, deturpando-se totalmente o caráter indenizatório que deveria recair sobre a interrupção das operações", afirma Fernando Martins.

Ele ainda sustenta que a própria avaliação sobre o que seria economicamente inviável depende de inúmeros fatores, que não foram levados em consideração pela ANTT.

"Tal avaliação poderia sofrer modificações em virtude do operador, da taxa de retorno esperada, da ampliação dos tipos de carga ou mesmo da exploração de trens de passageiros. Além disso, em momento algum foram considerados os bens ferroviários de potencial caráter histórico, que foram abandonados pela concessionária ao longo da vigência do Contrato de Arrendamento, e devolvidos em grande parte sem nenhuma referência à sua importância para a sociedade onde estão inseridos", diz. 

Grupo de Trabalho constituído pela própria ANTT para acompanhar os procedimentos relativos à desativação e devolução das linhas ferroviárias registrou "evidente insatisfação" da sociedade com a desativação de alguns trechos pertencentes à malha da FCA. A equipe chegou a registrar que foram feitas sugestões de que eles pudessem ser mantidos para a operação ferroviária de pequenas cargas, pequenos trajetos ou para o transporte de passageiros, em viagens regulares ou turísticas.

Outra suspeita sobre os atos que envolveram a edição da Resolução 4.131/2013 recai sobre os cálculos efetuados para valorar os trechos a serem desativados.

Segundo estudo feito pela ANTT, a FCA deverá pagar um valor de 760 milhões + 15% a título de vantajosidade pelos 742 km antieconômicos que serão "devolvidos".

Acontece que estimativa feita pelo Programa de Investimentos em Logística (PIL), iniciativa voltada à reestruturação de rodovias e ferrovias no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, considerou que o custo inicial de cada km a ser construído será de 8 milhões.

"Portanto, tomando-se por base o valor estimado pelo próprio governo, a conta não fecha. Além disso, não se pode esquecer que esses 760 milhões mais os 15% não serão pagos aos cofres públicos, que bancaram a construção da malha ferroviária atualmente existente, mas sim convertidos em investimentos na própria malha que a FCA continuará operando, ou seja, será investido no próprio negócio. Significa dizer que como a empresa vai perder receita por deixar de operar nos trechos que ela mesma quer devolver, terá de ser compensada, o que é um contrassenso", questiona Fernando Martins.
Regras do contrato - O MPF lembra ainda que a supressão e desativação dos trechos ferroviários viola o contrato de concessão firmado em 1996.

Isso porque as Leis 8987/95 e 9074/95, que disciplinam as concessões e permissões de serviços públicos, expressamente determinam que o concessionário deve garantir a continuidade na prestação dos serviços públicos, ficando obrigado a cumprir fielmente as cláusulas previstas nos respectivos contratos. No caso, o contrato de concessão da FCA, em sua cláusula Décima, inciso III, prevê unicamente a ampliação da prestação do serviço prestado, jamais sua supressão.

Além disso, existe uma resolução da própria ANTT (Resolução nº 44) segundo a qual, para a suspensão, supressão ou desativação, temporária ou definitiva, do transporte ferroviário de carga, a concessionária deverá, além de dar ampla publicidade ao fato, comunicar previamente sua intenção aos usuários dos serviços no trecho alcançado pela medida, às demais concessionárias que venham a ser afetadas direta ou indiretamente, ao proprietário dos bens arrendados, quando for o caso, e aos prefeitos municipais das cidades envolvidas, o que não foi feito pela Ferrovia Centro-Atlântica.

"Mais grave ainda é que a ANTT omitiu-se em aplicar penalidades pela inobservância deste procedimento", afirma o procurador. "Em virtude de todas essas irregularidades, recomendamos a anulação também dos atos consequentes da resolução, que são o Termo de Devolução e Recebimento firmado entre o Dnit e a FCA, assim como do termo aditivo ao contrato de concessão, que incluiu trechos não previstos no contrato original.

Foi dado prazo de 15 dias corridos para que a Diretoria-Geral da ANTT informe se irá acatar a recomendação.

Assessoria de Comunicação Social

Ministério Público Federal em Minas Gerais

Tel.: (31) 2123.9008 / 9010

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Porque o leilão da supervia é um grande erro?



Recentemente foi anunciado pelo governo do estado do RJ o leilão como sucata de 97 trens unidades elétricos - TUE, antes operados pela supervia. Esses carros serviram por muitos anos aos passageiros dos trens de subúrbio do Rio em momentos distintos operados por empresas distintas: Central do Brasil, CBTU, Flumitrens e Supervia. Um dos motivos de leilão é que, além da obsolescência do material rodante, os carros estão ocupando grandes espaços nos depósitos da Supervia em São Diogo e Deodoro, que precisam ser liberados para receber novos trens.
Tenho recebido dezenas de e-mails de pessoas, e entidades preservacionistas, indignadas com o leilão de trens da Supervia, autorizado pelo Estado, indignados porque esse material foi considerado, erroneamente, como inservível e será vendido a preço de sucata de ferro.
Essa situação nos remete a um problema que tira o sono das ferrovias e de entidades de preservação ferroviária em geral: quando e como realizar a substituição do material rodante?
No Brasil o tema é uma recorrente dor de cabeça basta olhar os exemplos da inventariança da RFFSA que deixou milhares e milhares de toneladas de equipamentos em diferentes estados de conservação espalhados país a fora.


Material descartado pela FCA e pelo governo do estado do RJ oriundo do pátio de Praia Formosa, atualmente aguardando destinação pelo DNIT. Foto de Luiz Felipe Lopes Dias.

Há uma corrente de pensamento forte especialmente no Brasil de que "isso é sucata mesmo, não serve mais para nada, trem com 30 anos é lixo mesmo", acredito ser errônea essa posição dados os exemplos no Brasil de importação bem sucedida de locomotivas usadas pelas concessionárias dede carga e a grande indústria de remanufaturamento de material rodante existente nos EUA, onde uma vez aposentado nas ferrovias classe I o material rodante tende a ser recondicionado ou modernizado para ser posto em tráfego novamente ou desmontado criteriosamente para a obtenção de peças de reposição a baixo custo, vide o exemplo das várias indústrias especializadas neste tipo de serviço inclusive a National Railway Equipment – NRE que forneceu locomotivas modernizadas SD40-3MP para a MRS e fabrica locomotivas modelos GENSET feitas a partir de máquinas sucateadas, a MRS, aliás, que tem em sua frota várias máquinas modelo C30-7MP feitas a partir de locomotivas U23C e C36ME a partir de U30C’s. Mesmo na Europa temos exemplos de trens como os carros de passageiros usados vindos da França para Portugal e dos TGV de serviço postal convertidos a partir de TGVs para passageiros. A NRE que além de reformar material também realiza serviços de desmontagem para a obtenção de peças
Voltando a supervia apesar do anseio do passageiro por trens novo surgem algumas perguntas: será que a troca total da frota é realmente necessária? Somos um país rico o suficiente para isso? Não estamos recessão? Não faltam trens na Supervia, por exemplo? Então, porque vender esses carros?
Em geral o material ferroviário tem durabilidade secular e podem ter serventia mais nobre antes de serem irremediavelmente picotas pelo maçarico.
No caso específico de TUEs a obsolescência é definida mais pelas falhas eletromecânicas dos sistemas de tração do que pelas falhas puramente mecânicas dos demais sistemas do trem, pois as primeiras tendem a ser muito mais frequentes que as últimas.
Normalmente a quantidade de falhas tende a ser diretamente proporcional a idade do equipamento aumentando conforme o envelhecimento, porém outros fatores como a adequada manutenção e a robustez/adequação do equipamento ao serviço refletem nessa relação, vejam o exemplo abaixo:







Extraído do relatório de atividades 2013-07-julho AGETRANSP

As tabelas acima mostram a disponibilidade dos trens da supervia, os trens das séries 400 e 1000 são os mais antigos da frota (décadas de 60 e 50 respectivamente), no entanto apresentam taxas de falha substancialmente menores que a dos trens das séries 500, 700, 800, 900 (adquiridos entre 1977 e 1982) 9000 e 8000 (1996), os trens da série 8000 apesar de relativamente novos (1996) são os que possuem pior desempenho. Os trens da series 2000 e 3000, novos, apresentam disponibilidade muito maior que todo o restante da frota.
O fenômeno acima pode ser explicado pelas características técnicas do equipamento os trens da série 400 e 1000 possuem sistemas de conversão de tensões CC-CA baseados em ineficientes, porém robustos motores-alternadores, os trens mais modernos utilizam sistemas de semicondutores muito menos resistentes às práticas de manutenção e operação dos subúrbios do RJ.
Também podemos notar que há uma oscilação no MKBF dos trens que reflete a influência da prática de manutenção sobre o equipamento, e daí podemos inferir que apesar de superior ao restante da frota o MKBF dos trens novos logo deve começar a abaixar e atingir o mesmo patamar dos demais trens, podemos claro imaginar a troca contínua do material rodante não parece ser uma resposta economicamente efetiva.
Dessa forma parece que realmente se deve aposentar toda a frota antiga, porém deve-se observar que a experiência internacional mostra que a vida útil de TUEs sem grandes reformas é de no mínimo 30 anos chegando facilmente a casa de 50, vide a tabela abaixo com alguns dos TUEs no nordeste dos EUA:
Modelo
Material da caixa
Introdução/Retirada
Vida útil em anos
SLI
Inox
1958-1990
32
SLII
Inox
1963-2012
49
SLIII
Inox
1967-2012
35
SLIV
Inox
1973
42+
SLV
Inox
2009
6+
Highliner
Aço carbono
1971
44+
Highliner
Inox
2005
10+
Lackawanna MU
Aço carbono
1930-1984
54
Pioneer III
Inox
1958–1990
32
M1
Inox
1967-2007
40
M1A
Inox
1971-2009
38
M3/M3A
Inox
1984
31+
Arrow III
Inox
1977
38+
MP54
Aço carbono
1908-1981
73

Veja exemplos como os Bondes de centenas de cidades mundo afora, incluindo o Rio de Janeiro. Os da cidade de Los Angeles, por exemplo, trabalharam por décadas em Lisboa e ao serem substituídos por mais novos foram comprados, reformados e hoje continuam funcionando, prestando serviços e encantando quem visita aquela cidade.
E hoje em Lisboa, diversas gerações de Bondes (que agora se chama de VLT) convivem. Não destruíram os antigos. Acrescentaram os novos.
Os carros de fabricação da ACF e Toshiba que rodam hoje no subúrbio de Salvador-BA são respeitáveis sessentões, alguns dos quais rodaram antes no interior de São Paulo e alguns dos quais atenderam antes Belo Horizonte e cidades vizinhas.


 TUE Toshiba reformado. Foto site VFCO

No caso da supervia as novas composições compradas não repõem a totalidade de carros retirados de circulação. Ainda faltam trens em circulação para atender a demanda tanto que várias unidades se das séries 500, 700 e 900 foram climatizadas e serão mantidas em circulação mesmo com a atual revisão do programa de modernização da supervia o total de 230 trens ainda é inferior aos 250 operados pela CBTU na década de 80.

Em maio o estado anunciou a revisão do programa de modernização dos trens e alterou a meta apresentada na tabela abaixo reduzindo o total de trens de 231 para 201, em compensação pretende substituir 47 dos 91 trens reformados por trens novos (25 já encomendados).

O custo de aquisição de um carro de TUE novo é de R$ 1,75 a 3,5 milhões de reais enquanto o custo de reforma é de cerca de R$ 111 mil a 220mil. Ou seja, com o dinheiro que o estado do RJ pretende gastar com a compra de 22 trens chineses seria possível reformar toda a frota morta da supervia.


Portanto julgo que seria bastante conveniente que dos carros a serem leiloados fossem retidos para reforma e climatização os trens das séries 500,700, 900/9000 o que permite uma sobrevida de cerca de mais 15 anos ao material e o atendimento a meta inicial de 231 trens em circulação.

Mesmo levando em consideração o levantamento da ANTPTrilhos onde a frota consome em média 30% mais energia elétrica que os modelos novos ou modernizados e que a energia elétrica significa 25% dos custos totais da SuperVia, e 16% dos gastos mensais da CPTM, a economia sobre os juros do capital investido nos trens novos e a sua respectiva depreciação parecem absorver a vantagem sobre a diminuição do custo operacional e de manutenção.

Os trens das séries 400 e 1000 por serem de aço carbono (questão importante numa região litorânea como o Rio de Janeiro), não possuírem um projeto de climatização e possuírem um padrão de três carros ao invés de quatro ou oito dos TUES mais novos devem realmente ser baixados.
Ainda que se decida pela alienação da frota o puro e simples leilão de sucata não parece ser a destinação correta do material, o dinheiro arrecadado com a venda como sucata é irrisório comparado ao custo a ser desembolsados com compra de material rodante mesmo os mais modestos. Na realidade, sem erro algum na comparação, se rasgará dinheiro ao tratar este material como uma sucata que não é. Na verdade, um lote de 108 carros deteriorados foi objeto de ação judicial movida pelo governo do Estado contra a Supervia em 2007, o que resultou no reconhecimento, por parte da concessionária, de um débito de 96 milhões de reais, em 2005 o leilão de 83 carros gerou 60,3 milhões de reais.
Segundo o Governo do Estado, os recursos arrecadados deverão ser reaplicados em melhorias no sistema de trilhos do Estado, o que será muito pouco vis a vis às demandas de investimentos bilionários que o modal ferroviário requer. O que será arrecadado nos leilões será muito pouco, pois cada carro pesa entre 15 e 20 toneladas e será vendido a preço de sucata de ferro (R$ 0,70/kg) pretendendo arrecadar R$ 1,5 milhão o que não pagaria nem mesmo um único carro novo de TUE.
Cobre Mel                                       R$ 13,00 / kg
Cobre Misto                                    R$ 12,00 / kg
Alumínio Bloco (Limpo)                R$ 2,30 / kg
Antimônio (Zamak)                        R$ 1,50 / kg
Aço Inox                                         R$ 2,00 / kg
Alumínio Chaparia                         R$ 2,90 / kg
Bronze                                            R$ 7,50 / kg
Ferro                                               R$ 0,20 / kg
Chumbo                                          R$ 1,80 / kg
Bateria (Caminhão)                        R$ 45,00 / unidade
Aço                                                 R$ 7,50/Kg
Observando-se a tabela acima percebemos que o valor de leilão está subfaturado apenas o peso destes vagões em aço dá mais do que a receita anunciada pelo estado, isto se desprezando o fato de que estes vagões em sua maioria são feitos de aço inox e não ferro, o aço inoxidável possui valor de revenda muito maior, fora as toneladas de cobre e outros metais mais valiosos contidas em grande quantidade no sistema elétrico destes trens.
Fora peças que podem e são reaproveitadas em outros trens e ferrovias, os motores de tração lâmpadas, sistemas de freios, ventiladores, engates e vários outros componentes destes trens são compatíveis ou exatamente os mesmos dos trens de Salvador (séries 1000 e 400), Recife (série 800/8000), Belo Horizonte (900/9000), Porto Alegre (500, 700).
Além disso as instalações de manutenção e construção ferroviária do estado do RJ encontram-se operando bem abaixo da sua capacidade máxima, a desmontagem criteriosa ao invés do simples corte seria fator de geração de demanda emprego e renda para a indústria.
Mesmo a justificativa da necessidade de abertura de espaço nos pátios para recebimento de material novo não cabe, pois a supervia dispões de várias áreas grandes sem utilização que podem funcionar como depósito até uma destinação mais adequada aos carros a serem baixados:
ÍNDICE DE TERRENOS DISPONÍVEIS
Arquias Cordeiro          Área: 9.314 m²
Cosmos                         Área: 9.115 m
Santa Cruz                    Área: aprox. 126.115,00 m²
Guapimirim                  Área: aprox. 23.000 m²
Paciência                      Área: aprox.3.000 m²
Imbariê                         Área: aprox.6.000 m²
Vila Inhomirim             Área: aprox. 2.000 m²
Engenheiro Pedreira     Área: aprox. 1.400 m²
Japeri                            Área: aprox. 12.800 m²
Rua Ceará                     Área: aprox. 17.600,00 m²
Ótimo que carros mais modernos circulem na cidade do Rio de Janeiro, mas os carros no pátio da Supervia podem circular e atender dezenas de cidades no próprio Estado do Rio e no Brasil, onde não existe serviço ferroviário de passageiros. Vide o exemplo dos trens metroliner nos EUA hoje convertidos para carros reboque em tráfego na AMTRAK, a não existência de redes elétricas não significa absolutamente nada de empecilho para a utilização de carros de TUEs. Eles podem ser utilizados REBOCADOS, SEM ALTERAR SUA BITOLA (1,6 m) podemos imaginar seu uso em trechos como: Japeri – Barra do Piraí, Três Rios – Paraíba do Sul, Resende-Volta Redonda, Miguel Pereira – Paraíba do Sul, Itacuruçá – Mangaratiba, Belo Horizonte – Sete Lagoas (MG), e a expansão do serviço de trens urbanos e trens regionais, há no contrato de concessão da supervia a previsão de extensão dos serviços de trens até Itaguaí em tração a diesel de bitola larga, o material rodante ideal para tal é justamente o que vai ser leiloado. Também existem as demandas de trens regionais entre o Rio de Janeiro e Campos, demandas apresentadas dentro das audiências públicas da implantação da EF118.ALTERANDO A SUA BITOLA (para 1,0 m) seus usos explodem tantos são os trechos. Destaco a modernização das composições que atendem aos ramais de Guapimirim e Vila Inhomirim, os trens a serem alienados por serem de aço inox resistem melhor ao ambiente abrasivo da região do fundo da Baía de Guanabara melhor do que os trens hoje operados pela supervia, inclusive os trens a serem alienados são mais novos que as composições em usos nestes ramais, embora estes ramais sejam de bitola métrica no passado durante a administração da CBTU houve a transferência de trens elétricos da bitola larga para servirem como carros reboque diesel na bitola métrica.
 
TUE série 100, em Gramacho (Duque de Caxias-RJ) em 1986 após ser aposentado dos serviços de bitola larga foi transferido para a métrica aonde chegou a ser operado pela supervia no ramal de Vila Inhomirim aos 75 anos de idade. Foto Hugo Caramuru.
Fora a utilização comercial no Brasil são dezenas de possibilidades e de iniciativas de trens turísticos que não deslancham por falta de material rodante, uns dos maiores empecilhos para a implantação e inúmeras delas poderiam ser beneficiados com estes carros permitindo que saiam do papel. Hoje no estado do RJ há pelos ao menos quatro projetos de trens necessitando de material rodante e que poderiam ser beneficiados: o trem da mata atlântica em Angra dos Reis, o trem azul em Miguel Pereira, o trem da Costa Verde para Mangaratiba e o trem Barrinha entre Japeri e Barra do Piraí.
Também a possibilidade de adaptação dos carros para serviços de manutenção, a maior parte dos trens de manutenção de rede aérea da Supervia hoje são antigos trens unidade de aço carbono da série 100 convertidos para a manutenção de rede aérea pela CBTU e possuem 78 anos de idade!  A supervia recebeu cerca de 10 trens a época da concessão. Vários destes carros podem substituir estes trens, a própria Supervia já fez duas substituições destas (trens TS1 e TS2). Além da Supervia e do metrô rio as futuras operadoras das linhas três e quatro do metrô também precisaram de trens de manutenção que podem perfeitamente ser baseados nos carros de aço baixados.

TUE série 100 da EFCB adaptado como trem de serviço na MRS

 TS1 da supervia no ramal de Paracambi

Trem com carros da série 100 operando na supervia, o segundo e o terceiro carro são ttens da série 100 modernizados pela RFFSA/DES depois convertidos em trens de manutenção de redeaérea pela CBTU.

Outros usos alternativos, como carros biblioteca, postos de saúde, oficinas, e até mesmo substituindo os tão mal falados contêiner utilizados pelo DETRAN RJ e pela Polícia Militar nas UPPs, em face de enorme durabilidade, solidez e resistência ao tempo das suas caixas de aço, permitindo que durem ainda mais de meio século, mesmo se exposta ao tempo.
Carro da série 500 da supervia em uso pela Faetec em Nilópolis-RJ, foto de Antônio Pastori.
Por fim também se pode pensar no uso como laboratório para as aulas práticas da escola técnica estadual Silva Freire, instituição carioca centenária de capacitação em ferrovia, o estado do RJ é um dos poucos no país que possuem ensino público especializado na área ferroviária, mas que carece de meios para aulas práticas antes de entregar o aluno ao mercado.
Enfim não se trata de saudosismo, dados as questões econômicas e sociais expostas anteriormente seria muito importante que a SETRANS reservasse alguns desses carros para uso mais nobre, permitindo a inspeção do material por possíveis interessados. Todas as opções acima apresentadas são realizadas por diversas ferrovias tanto no Brasil quanto no exterior, inclusive referências como o metrô de Nova Iorque e as operadoras de trens regionais dos EUA, e dariam ao estado um retorno muito maior no sentido da economia com a aquisição de material rodante para as demandas do transporte ferroviário do estado do que o valor gerado pela sua venda como sucata.
Reaproveitamento de trens elétricos em tração diesel
Trens série 800/8000
Trens série 900
Transferência do trem da série 100 para bitola métrica: