domingo, 15 de janeiro de 2012

Paixão pela ferrovia sobrevive ao tempo em Bento Quirino-SP.



A sirene é tocada pontualmente às 7h, em Bento Quirino, anunciando o início do expediente. Às 11h, ressoa novamente, indicando a hora do almoço, que termina às 12h30, quando o sinal surge novamente. Às 16h30, toca pela última vez no dia, anunciando o fim da jornada. Os horários não são seguidos à risca pelos dois mil moradores do pequeno distrito de São Simão, mas desempenham uma referência mais profunda, ecoam uma rotina de décadas passadas, quando na localidade funcionavam os trens da Companhia São Paulo e Minas e da Mogiana.

Estacao de Bento Quirino - SP Fotos de O.R.N.B

O som religiosamente reproduzido é artimanha do comerciante Antonio Rodrigues, 69 anos, que 40 anos atrás viu sua comunidade se entristecer com o fim das atividades da companhia ferroviária. Por volta de 1970, quando os trilhos e a sirene foram arrancados de vez do distrito pela Fepasa, ele fez uma réplica do sinalizador original. “Era uma tradição. Todo o povo se baseava no horário da ferrovia. Quando desativaram, ficou aquele silêncio. Resolvi retomar a tradição e as pessoas gostaram”, diz o empresário, que pretende informatizar o equipamento carinhosamente chamado de “sereia” daqui alguns tempos para não correr o risco de perder a hora de acionar a buzina.

Cada construção, cada esquina de Bento Quirino, de um centro de saúde à sede dos Correios, é fragmento de uma trajetória que começou no final do século 19, quando o médico baiano Jorge Fairbanks decidiu mudar o início do traçado da ferrovia, então no centro de São Simão, para uma localidade ao norte, a fim de garantir mais segurança às viagens até Santos – São Simão foi entreposto de carga trazida do Sul de Minas e do interior de São Paulo.

“Ele resolveu mudar o traçado porque era um percurso no meio das montanhas, muito problemático, que desbarrancava muito. Com isso ele construiu um bairro ferroviário. Então a Companhia Mogiana veio aqui e também instalou a estação dela para pegar café”, explica o advogado Edilson Orlando Palmieri, 45 anos, que após 14 anos de pesquisas sobre a ferrovia publicou o livro “Nos Trilhos da Vida”.

Da ferrovia surgiu a vila, dessas em que o canto do pássaro é mais ressaltado que dos carros, que a prosa na praça é a principal atividade do dia, onde os paralelepípedos predominam. O cenário, se hoje é bucólico para alguns, outrora deu lugar a um modelo estadual de habitação, uma comunidade, com direito a escola especializada em formação de ferroviários, desenvolvida a partir da construção da sede da Companhia São Paulo e Minas, cuja trajetória, do apogeu ao fim, foi determinada por acontecimentos históricos como a Primeira Guerra Mundial e pela Crise de 1929.

“A ferrovia é a razão de nossa existência. Cerca de 80% da população pertencia à Companhia São Paulo e Minas, que colaborou muito para o progresso de São Simão”, lembra-se Fernando Túbero, 80 anos e “seis meses”, que foi um dos quase 600 funcionários da empresa por 31 anos. Ele se lembra com tristeza dos idos anos 1970, quando as atividades no local foram encerradas. “Foi uma tristeza tremenda. Todo mundo ficou desempregado”, relata.

A cada virada, o distrito desperta flashes como a Maria Fumaça que enfeita a portaria do clube local e, um pouco mais adiante, a “aranha”, uma espécie de obstáculo para a parada dos trens. Pequenas placas amarelas nas fachadas das residências mais antigas evidenciam a perenidade de uma história. De sua casa, Fernando Túbero mostrou, dentre os muitos documentos de época, um caderno com registro de todos os funcionários da repartição pela qual trabalhou. “Quando a São Paulo e Minas acabou puxei o livro pra mim”, comenta, sobre o material protegido por tecido especial, “guardado a sete chaves”.

Memorial ferroviário

Como forma de garantir que essas memórias não se percam, a prefeitura abriu em 2007 um projeto de revitalização da antiga estação ferroviária no antigo entroncamento das linhas da Companhia Mogiana e da São Paulo e Minas. O Memorial Ferroviário “Alberto de Oliveira” (dedicado a um ferroviário da época) foi inaugurado em novembro deste ano, após uma reforma que demandou R$ 150 mil. “Tem documentos, equipamentos e ferramentas com 100 anos. O mais importante é que as pessoas frequentem e preservem”, afirma o diretor de Turismo de São Simão, Edenir Luis Belluc.

Com cerca de cem metros quadrados, tem três salas. Uma destinada à exposição documental e fotográfica, com painéis de quatro metros quadrados que garantem um mergulho rápido pela história da estação, outra destinada a um futuro acervo e uma terceira repartição livremente denominada de “sala da vergonha” pelo diretor de turismo.

A vergonha está explícita na fechadura trancada. O acesso a 28 peças antigas foi embargado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) depois que a Procuradoria Geral da República de Ribeirão Preto entrou com ação para reaver as peças para o município vizinho. “Na retirada do material fomos embargados pela Procuradoria, solicitando que fosse lacrado e feito um novo inventário para uma nova partilha. Um ano se passou e nada foi feito”, lamenta.

Do lado de fora, se os trilhos não se encontram mais, bem em frente ao memorial encontra-se a antiga sede de operações da companhia, hoje escritório dos Correios, com suas características originais. Um pouco mais adiante, um mega galpão abandonado, o armazém em que os vagões eram recarregados por café antes de seguirem viagem.

Antigo Centro Operacional Estação Bento Quirino - SP. Foto: O.R.N.B

Na escadaria frontal do novo museu, bem ao centro, uma dúbia referência. As iniciais SPM fazem referência ao nome da companhia ferroviária tão relembrada pelos moradores de Bento Quirino, também são uma singela e coincidente menção a Simão Pereira Macedo, enterrado na localidade, um dia labutador da ferrovia.