sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Entrevista Luis Carlos Cosenza

segunda-feira, 19 de setembro de 2011


Apaixonado pelos bondes

Entrevista
Luis Carlos Cosenza
Um homem apaixonado
por Santa Teresa,
e amante
dos Bondes


Um homem apaixonado, preocupado e ao mesmo tempo amargurado com a realidade do Sistema de Bondes de Santa Teresa. Assim pode se definir o Engenheiro Luiz Antonio Cosenza uma pessoa que por questões sentimentais é extremamente envolvida com o sistema de bondes e, por questões profissionais, é um dos que mais entende do assunto.

No final da década de 90, Cosenza ocupava o cargo de diretor técnico da CBTU – Companhia Brasileira de Trens Urbanos – que era responsável pelos bondes e, em 2002, assumiu a presidência da Central Logística empresa que passou a administrar o sistema de bonde. Neste período, eram recorrentes os comentários de que o principal e mais simpático meio de transporte da cidade seria privatizado ou municipalizado.

Os bondes naquela época pertenciam à CBTU e nossa opção foi a de comprar o sistema de bondes para que ele pudesse ser preservado. Não gostávamos da idéia da privatização e, segundo comentários, caso o sistema fosse municipalizado o prefeito César Maia iria demitir os funcionários.

Foi o zelo, o reconhecimento da importância histórica e cultural que os bondes representam para a cidade e, principalmente, a amizade que passou a ter com os funcionários que fez Cosenza se aproximar e a se preocupar cada vez mais com a realidade dos bondes. Ele passou a entender rigorosamente de tudo em relação ao sistema bondes: as condições precárias da garagem, o ultrapassado sistema de fiação da rede elétrica, as irregularidades no sistema de trilhos, da realidade dos funcionários e do descaso do poder público que insistia em adiar a busca por uma solução. Uma aproximação tão grande com os bondes, fez com que ficasse também muito próximo à realidade e aos problemas de Santa Teresa.

O trágico acidente ocorrido no último dia 27 mais uma vez aproximou o engenheiro do Sistema de Bondes. Atualmente ocupando a vice-presidência do CREA – Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura – uma de suas atribuições é o trabalho que exerce na Comissão de Analises e Prevenção de Acidentes da Câmara de Engenharia Elétrica. Em conseqüência disto, é um dos responsáveis em apurar o que aconteceu exatamente no trágico acidente em Santa Teresa.

Aos 59 anos, Cosenza procura não emitir qualquer opinião definitiva ou buscar culpados para a tragédia. Mantém sua opinião de ser contrário ao sistema de privatização, diz que não medirá esforços para que os fatos sejam definitivamente apurados. Pede atenção das autoridades não só para com o bonde, mas também para com Santa Teresa, pois em seu entender, o bonde é uma extensão do bairro e sem os bondinhos Santa Teresa perderia praticamente todo seu charme, beleza e encantamento.

Capital Cultural – Irresponsabilidade, incompetência, descaso, fatalidade... O que aconteceu em Santa Teresa?
Cosenza - É claro que, sentimentalmente, existe dentro de mim e de cada um de nós que sabemos a importância dos bondinhos uma grande amargura. Profissionalmente falando, qualquer diagnóstico feito de forma emotiva seria irresponsável e leviana. Nosso objetivo é saber a real causa do acidente. Temos que ficar atentos para não colocarmos a culpa em quem não é culpado. Às vezes vai se adiando, vai se postergando o serviço de manutenção e quando acontece um acidente ou uma tragédia, partimos para apontar culpados. No Brasil não temos esta característica de não nos preocuparmos com a manutenção, mas depois que uma tragédia acontece, temos a mania de buscarmos culpados. Sempre colocamos a culpa nas costas do piloto, do mortoneiro, do motorista, ou de um eletricista. Atribuímos a eles, uma culpa que eles não têm.

Capital Cultural – Até aqui já foram criadas algumas versões, inclusive, uma que ao parece não é plausível que é a super-lotação. Isso faz sentido?
Cosenza - A superlotação pode ter contribuído para o acidente, mas não foi a causa. Trabalhamos exatamente para encontrar essa causa. Tudo leva a crer que houve uma falha no sistema de freio Me surpreendeu declarações que li nos jornais de que o bonde com o qual ocorreu o acidente diversas vezes foi para a manutenção por conta de sapata de freio. Isso é muito complicado, pois ou a sapata não era trocada por uma nova sapata ou a sapata era de péssima qualidade. Não se troca sapata um dia sim e um dia não. Se o bonde passou por tantas manutenções, temos que saber a origem desta sapata, sua procedência e sua qualidade. É preciso ficar claro se a sapata era ou não nova. Vimos no local do acidente que uma das sapatas estava desgastada. Isso, porém, não justifica o acidente, pois uma sapata desgastada não é o motivo para o que aconteceu se as outras sapatas estavam novas. Tudo leva a crer que houve uma falha no sistema de freagem. É isso que temos que apurar.

Capital Cultural – Faz sentido a argumentação dos moradores de que essa era uma tragédia anunciada?
Cosenza – O bairro tem características próprias. Temos um relatório daquele acidente de 2009, que vitimou aquela professora. Naquela ocasião e mesmo antes disso, já alertávamos para os problemas que os bondes vinham apresentando. Falamos que era preciso ordenar o bairro, acabar com tantos estacionamentos que tira o gabarito no trajeto de percurso do bonde. Falamos dos ônibus que andam em alta velocidade e sempre oferecem perigo. O transporte principal em Santa Teresa tem que ser o bonde. Essa questão de que era uma tragédia anunciada, de certa forma faz sentido, pois se algo é anunciado e você não cuida, não faz a manutenção necessária e não tem o zelo necessário, o que foi anunciado acaba acontecendo.

Capital Cultural – Neste primeiro de setembro os bondinhos completam 115 anos. O tempo de vida útil, o desgaste podem ser fatores que colaboram para o risco de acidentes?
Cosenza - Independente da idade do equipamento, qualquer que seja o equipamento, se ele tiver uma manutenção adequada, se as peças forem repostas, se houver cuidados, este equipamento estará seguro. Este argumento não justifica e nem procede. Não podemos sob nenhuma hipótese culpar a idade do bonde. A idade do bonde é um fator que nos obriga a termos mais cuidado. O bonde não é inseguro pela idade e sim pela falta de manutenção. Há uma coisa que muitas pessoas insistem em não entender: a discussão do bonde não pode se limitar apenas ao bonde. É preciso zelar mais pelo bairro, limitar a velocidade dos carros que por lá trafegam, olhar com mais atenção para os ônibus que deveriam andar em baixa velocidade, evitar que caminhões com carga pesada transitem. Não podemos pensar o bairro e o bonde apenas nos finais de semana para turistas. Isso seria um crime contra a população. O bonde é um veículo de passageiros e não apenas com finalidade turística. As pessoas pensam que o bonde é uma extensão do bairro e sem os bondinhos Santa Teresa perderia praticamente todo seu charme, beleza e encantamento.

Capital Cultural – A decisão do governador em colocar um interventor é razoável?
Cosenza – Fico pensando qual será exatamente a função deste interventor. Se veio para solucionar, para discutir com os moradores, com as entidades da engenharia e as entidades representativas, tudo bem, acho válido e sua presença poderá ser extremamente útil. Mas se veio para trazer fórmulas prontas não vejo grandes vantagens. . Ele tem que dizer a que veio.

Capital Cultural – Exonerar o Júlio Lopes como muitos querem, resolveria alguma coisa?
Cosenza - A discussão me parece vaga. Temos que questionar o seguinte: existiram investimentos suficientes para quem fossem encontradas soluções para os problemas que os bondes apresentam? Penso que essa é a questão. Saber quem vai estar lá, se o Júlio Lopes, se o Rogério Onofre, se o Pedro, o Manoel ou o João isso não cabe discutir e nem sei se vai acrescentar alguma coisa. Não cabe ao CREA opinar quem será o responsável, quem o governador vai colocar lá ou exonerar. Temos que saber onde serão os investimentos, de que maneira serão feitos e se estes investimentos possibilitarão a recuperação do sistema e segurança para a população. Pense que essa é a discussão e não podemos perder este foco. Não se pode botar a culpa em alguns funcionários que estão lá. Todos sabemos, que os funcionários que trabalham nos bondes, exercem suas funções dentro de um limite possível. Se fosse oferecido material e condições para que esses profissionais fizessem uma boa manutenção, não tenho dúvidas que eles fariam, pois são pessoas que amam o sistema de bonde e não trabalham apenas por obrigação.

Capital Cultural – Sobre a privatização, você acha necessária?
Cosenza – Vamos fazer uma reflexão sobre o sistema de privatização. Não podemos perder de vista que o único estado que privatizou o sistema rodoviário foi o Rio de Janeiro. Nenhum outro estado partiu para essa alternativa como solução. Se compararmos nossas duas maiores capitais que é São Paulo e o Rio de Janeiro, vamos perceber diferenças substanciais. No Rio, o sistema de transporte é privado e a sociedade vive se queixando e sempre temos problemas das mais diversas ordens. Em São Paulo, além de um ótimo serviço nos trens, o metro é uma referência de operação no mundo inteiro. Temos que considerar que o metrô em São Paulo transporta perto de 4 milhões de passageiros por mês. Temos que acabar com esse delírio de que a privatização é a melhor solução, que resolve todos os problemas. O privado não é melhor que o público. O que o Estado precisa é criar mecanismos para que uma empresa de sua propriedade tenha condições e possibilite condições para que seja realizado um bom trabalho. Esta é a questão. A privatização não soluciona nada. O governador tem que assumir a responsabilidade pelo bonde. E a Prefeitura deveria ter um maior controle sobre os ônibus.

Capital Cultural – A privatização dos transportes e outros serviços no Rio de Janeiro é meio perversa, pois as empresas que conseguiram estas concessões exploram o serviço, mas o povo continua pagando a conta.
Cosenza – É uma verdade. Você privatizou o sistema de trens do Rio de Janeiro, mas os investimentos continuam sendo realizados pelo Estado. A compra de trens quem paga é o Estado. Se você privatiza você entende que a responsabilidade pela administração e pelos custos é da empresa que ganhou a concessão e assumiu o serviço, mas não é assim que funciona. O estado continua pagando com dinheiro público os investimentos das empresas privadas. O povo acaba sendo o grande beneficiado com esse serviço, mas é ele quem esta pagando. Não critico a compra dos trens. Questiono o fato de o estado usar o dinheiro público para atender o interesse de empresas privadas. O serviço é público, mas a empresa é privada. Se você privatizar o bonde, ou o Estado vai subsidiar a passagem ou o povo não terá condições de pagar o preço desta passagem. Será que este bonde será só para turista.

Capital Cultural – O bonde tem uma característica curiosa, pois embora nossas autoridades partam do principio que o bonde é uma atração turística e para turistas, sua finalidade principal é atender os moradores.
Cosenza - Nunca podemos perder de vista que os bondinhos se transformaram em um dos principais símbolos da cidade e do país. O curioso é que, ao que parece muitas pessoas não sabem, que o bondinho de Santa Teresa é o único transporte de passageiro no Brasil com essa característica. Não existe outro, é único. Todos os outros são turísticos. O que a sociedade quer é um bonde que atenda a população. Percebo um grande equívoco quando se fala do bondinho de Santa Teresa, pois parece que atende somente aos turistas e à classe média do bairro. Isso não corresponde à verdade, pois nestes dias que o bonde esta parado, observei, muitas pessoas andando a pé, descendo as ladeiras para o trabalho a pé. Santa Teresa é um bairro de classe média, mas é composto também por muita gente pobre, por muitas comunidades, por pessoas que não podem pagar o preço da passagem do ônibus. Enquanto os bondes não estiverem circulando, o Governador do Estado deveria colocar o preço do ônibus pelo mesmo preço do bonde.

Qual sua opinião sobre a Municipalização?
Cosenza – Se a Municipalização acontecer para resolver os problemas com investimentos, uma melhora na estrutura e o povo puder continuar andando nos bondes, pode ser uma solução interessante. Não adianta o Município apenas assumir o bonde. Antes de assumir, tem que dizer o que vai fazer, como vai fazer e em que período de tempo vai fazer, qual será a tarifa cobrada. É preciso, por exemplo, olhar com carinho para os funcionários que dedicaram toda uma vida aos bondes. Esses funcionários sim, eles sabem cuidar dos bondes. Penso que a discussão se o bonde será ou não municipalizado é secundária. A questão é saber se as pessoas poderão voltar a andar nos bondes de forma segura sem medo. Se a Prefeitura vier para resolver, que venha. Acredito, entretanto que a pior solução é a privatização.

Capital Cultural – A recuperação dos bondes, que as autoridades chamam de VLT – Veículos Leves Sobre Trilhos – e a comunidade os denominou de Bonde Frankenstein, foi e continua sendo outro motivo de muita polêmica. A adaptação dos bondes é um problema ou uma solução?
Cozensa – Não sou contra a modernização desde que se mantenham as características dos bondes. Antes de disponibilizar, de colocar em circulação, é preciso que todos os testes sejam realizados e caso sejam detectados problemas é preciso que sejam consertados. O que tenho visto na imprensa, e essa é também uma critica recorrente dos moradores é que os bondes adaptados desde que foram colocados em circulação apresentam problemas, oferecem insegurança e medo. Deveríamos manter uma quantidade de bondes antigos que sempre operaram no bairro e gradativamente fazendo teste nos bondes adaptados antes de colocá-los em circulação. Observo, por exemplo, e não se leva muito isso em consideração, o fato de que a população de Santa Teresa cresceu muito e os bondes já não atendem essa demanda. Talvez por isso tenhamos superlotação. Vamos modernizar, mas colocar em operação só depois que for testada a eficiência e a certeza de que é um bonde extremamente seguro. Os funcionários reclamam, mas demonstram certo receio e muitos preferem se calar, mas segundo eles, estes bondes precisam ser testados dentro da realidade do bairro. Realizar testes em linha reta não resolve muita coisa e nem garante nada. É preciso se testar esses novos bondes nas ladeiras e nas condições adversas de Santa Teresa.

Capital Cultural – A cidade, o país e, principalmente nossos políticos começam a pensar e a respirar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Não causa certo temor ver uma das principais atrações turísticas da cidade nas condições que se encontram.
Cosenza – Se os bondinhos são tão necessários, se representam uma atração turística e um transporte para passageiros do bairro, temos que pensar esta questão de forma séria e buscarmos alternativas para o serviço. Se não temos mais bondes antigos, vamos fabricar novos bondes com as características dos bondes antigos. Isso é viável e possível. Nem sempre a modernidade é sinônimo de progresso. Estamos trabalhando contra o tempo, precisamos disso para ontem. Precisamos testar estes bondes, proporcionar segurança para os moradores e para os turistas.

Capital Cultural – Na condição de cidadão carioca, de uma pessoa que se preocupa com a cidade, quando você olha para a situação dos bondes, qual sua sensação?
Cosenza – No mais íntimo de mim sou tomado por um sentimento de tristeza e decepção.
O bonde é um símbolo cultural da cidade. Faz parte da história de nossa cidade. Com todo respeito que tenho pelo bonde do corcovado, mas não existe nada como o Bondinho de Santa Teresa. Quando você liga a televisão, todos os jornais têm como fundo uma imagem do bondinho. É um símbolo da cidade. A imprensa começa a divulgar a licitação para uma compra imensa de trens para a Super Via. Acho correto que se melhore o transporte sobre trilho no Rio de Janeiro, mas se você pega a metade do valor de apenas um trem, você recupera todo sistema de bondes. Lamento profundamente esta situação, pois a recuperação de todo sistema de bondes e, inclusive, o aumento do número de bondes, representa um montante muito pequeno para o Estado. Destruir o bonde é destruir parte da história do Rio de Janeiro. Não podemos ter uma tragédia com vítimas para então pensarmos em fazermos melhorias nos bondes e pensarmos em soluções para os bondes mesmo porque esta solução pode não ser a melhor.