terça-feira, 23 de outubro de 2012

O BNDES e o início do fim

Adaptado de "os 50 anos do BNDES"


Raras são as ocasiões em que se percebe nitidamente estar participando de um momento histórico, uma época de grandes transformações. Mais raras ainda são as vezes em que esse momento é positivo e otimista. Não foi à toa que a década de 50 ficou conhecida no Brasil como “Anos Dourados”. Quem os viveu guarda até hoje a lembrança clara de que, apesar das inevitáveis dificuldades de qualquer época, aquele foi um período áureo para o Brasil. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (que de início se chamava Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, sem o “Social”, só agregado nos anos 80) surgiu naquela fase da história brasileira e se mostrou fundamental para realizar muito do que então se sonhava. Em parte, a percepção de que se estava num momento favorável devia-se ao fato de que o mundo acabara de sair da Segunda Guerra Mundial. Mesmo no Brasil, distante dos centros do conflito armado, o alívio era geral. Embora a guerra tenha trazido dor e desolação, o confronto acabou por favorecer o desenvolvimento da indústria brasileira.
Em vista da guerra e da valorização das matérias-primas nacionais, o Brasil tornava a atravessar um período de substituição de produtos importados. No final do conflito, o país acumulara um montante significativo de reservas cambiais e agora gastava parte dele atualizando o parque industrial. No fim dos anos 40, já era praticamente auto-suficiente em bens perecíveis e semiduráveis – alimentos, bebidas, fumo, têxteis, vestuário, couro e peles, gráfica e editoração, madeira e móveis. Era o momento de dar um salto qualitativo no processo clássico de desenvolvimento industrial, a hora de passar para outro estágio, em que a indústria pesada se consolida e se expande. No entanto, esse novo degrau exigia capital para fazer grandes investimentos na criação de empresas.
Nem mesmo os maiores industriais brasileiros da época dispunham de recursos suficientes para tanto. As reservas, além de financiarem o aumento da produção, estavam sendo gastas com a importação descontrolada de bens de consumo. A presença de marcas vindas dos EUA assinalava a vitória do American way of life. Aos antigos e singelos nomes de produtos nacionais, como Fixbril, Fixol, Modonal e Eucalol, por exemplo, vieram juntar-se as grandes marcas comerciais americanas, como Kolynos, Bendix, Remington, Frigidaire, Walt Disney e Bardhall. Sem falar das demais marcas estrangeiras: Nestlé, Facit, Bayer e tantas outras. A publicidade começava a sofisticar-se, preocupando-se com a linguagem direta e o apelo visual. Os grandes magazines estimulavam o consumo, oferecendo a novidade do crediário. O entusiasmo chegou a tal ponto que, em 1947, o presidente Eurico Gaspar Dutra – que governou o país exatos cinco anos, de 31 de janeiro 1946 a 31 de janeiro de 1951 – baixou severas medidas cambiais para restringir as importações. Durante a guerra, o Brasil recebera dos EUA somas significativas de recursos que financiaram, entre outros empreendimentos, a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda no estado do Rio de Janeiro. Encerrado o conflito, o governo acreditava que continuaria gozando de facilidades na obtenção de crédito. No entanto, os recursos internacionais disponíveis migraram para a reconstrução da Europa (o Plano Marshall) e do Oriente (o Plano Colombo). Insatisfeito com tais rumos, o presidente Dutra passaria o seu mandato insistindo junto ao governo americano para que se restabelecesse o fluxo de capitais em direção ao Brasil. Contudo, o país e o resto da América Latina se afiguravam aos EUA uma região sem grandes problemas estratégicos (estimava-se erradamente que fosse mínima a influência da União Soviética na área) e sem maior atrativo para investimento, pois tinha sérias dificuldades de infra-estrutura. Por isso, Washington fazia ouvidos moucos aos constantes pedidos de crédito e investimento que chegavam do Rio de Janeiro, a então capital brasileira. Em 1947, também no Rio, realizou-se a Conferência Internacional Sobre a Defesa do Continente (no ano seguinte, seria criada a Organização dos Estados Americanos, OEA). No evento, os representantes brasileiros aproveitaram para aumentar a pressão sobre os americanos. Harry S. Truman, presidente dos EUA, aceitou que se criasse uma comissão para discutir formas de incentivar o investimento privado no Brasil. Instalou­se assim a Comissão Técnica Brasil-Estados Unidos, retomando a cooperação econômica estabelecida pela Missão Cooke (que o presidente Franklin D. Roosevelt enviara durante a Segunda Guerra Mundial). A nova comissão era liderada por John Abbink, no lado americano, e Otávio Gouvêa de Bulhões, no brasileiro. O grupo acabou conhecido como Missão Abbink. Em 1945, Truman, em seu discurso de posse, acenara com verba de US$ 45 milhões para investimento na América Latina. Mas esse montante se viu reduzido a US$ 34,5 milhões quando teve início a Guerra da Coréia, em 1949. A partir daí, foram os EUA que passaram a pressionar o governo brasileiro para que o auxiliasse militarmente no novo conflito. O Brasil evitou comprometer-se de forma direta. Em vez disso, dispôs-se a fornecer em caráter preferencial aos americanos as matérias-primas necessárias para o esforço de guerra. Ainda em 1949, a Missão Abbink elaborou um documento, bastante abrangente, que analisava não só os segmentos econômicos e as precondições para o desenvolvimento, mas também a participação do Estado e do capital estrangeiro. Foi a primeira tentativa de criar um plano de desenvolvimento para o Brasil. Contudo, a Missão não chegou a detalhar projetos para investimento, nem a calcular os montantes necessários. O governo brasileiro, por sua vez, vinha trabalhando paralelamente com os mesmos dados e divulgou, também em 1949, um conjunto de medidas a serem implementadas entre aquele ano e 1953. Essas medidas ficaram conhecidas como Plano Salte. Sem dinheiro externo para alavancar a industrialização, fazia-se o possível com os recursos disponíveis em moeda nacional. Dutra adotou uma política de crédito mais liberal. Concedeu, por exemplo, empréstimos do Banco do Brasil a setores industriais considerados chaves. Resultaram dessa política a nova fábrica de celulose da Klabin, em Monte Alegre (PR), e a criação da Aços Especiais de Itabira, Acesita, no vale do rio Doce (MG). Parecia uma opção viável para o desenvolvimento, muito embora se previsse que o ritmo seria lento, pois o Plano Salte, que orientava as ações governamentais, abarcou apenas investimentos públicos e não conseguiu efetuar um planejamento em escala nacional. Mesmo assim, os últimos anos do governo Dutra já apresentavam índices de crescimento muito positivos: 6% ao ano. Era preciso perseverar nesse caminho.

A eleição presidencial de 1950 traria de volta ao palácio do Catete um velho conhecido das massas: Getúlio Vargas, o “Pai dos Pobres”. Alçado ao cargo de forma inédita na carreira – ou seja, pelo voto –, Vargas tomou posse em 31 de janeiro de 1951. O povo, bem-humorado, não deixou passar em branco a reviravolta na vida do político e resumiu a história com a marchinha: Bota o retrato do velho outra vez/ Bota no mesmo lugar…
O debate iniciado no governo Dutra sobre estratégias de desenvolvimento econômico teria continuidade, agora com muito maior ênfase. Vargas tomou para si o posto central nas discussões políticas sobre o tema. A seu ver, era necessária, sim, a intervenção governamental para direcionar o crescimento econômico brasileiro. O ideal seria fazer isso com o auxílio do capital estrangeiro. Em 1950, realizara-se no Rio de Janeiro uma Conferência de Embaixadores. Mais uma vez, o Brasil conseguiu que se formasse outra comissão mista (a polêmica Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, CMBEU) para analisar projetos que seriam objeto de financiamento. Da parte do governo brasileiro, existia a expectativa de que os valores disponíveis para tal financiamento chegassem a US$ 500 milhões (contra os US$ 250 milhões que os americanos pareciam dispostos a desembolsar). Em troca, facilitaríamos a exportação de matérias-primas para os EUA. Em 19 de dezembro do mesmo ano, chegou-se a um acordo: os brasileiros criariam um fundo paralelo, no mesmo valor do capital disponível em dólares, que também serviria aos financiamentos que viessem a ser selecionados pela CMBEU. Vargas encampou o projeto. Em setembro de 1951, junto com o governo americano, assinou com o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (BID) e o Export-Import Bank (Eximbank) um memorando para formalizar o interesse dessas instituições financeiras pelo Plano de Reaparelhamento Econômico, que o Brasil empreendia por indicação da CMBEU. Nos meses seguintes, aprovou-se uma série de leis que criavam as bases legais para compor um Fundo de Reaparelhamento Econômico. A fim de administrar esse fundo, mais os recursos oriundos do Ministério da Fazenda e os outros montantes externos dirigidos ao país, propôs-se estabelecer um banco especial. Sua tarefa seria estudar e sugerir medidas destinadas a “criar condições para eliminar os obstáculos ao fluxo de investimentos, públicos e particulares, estrangeiros e nacionais, necessárias a promover o desenvolvimento econômico”. Assim, resultou diretamente dos trabalhos da CMBEU a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) pela lei 1628, de 20 de junho de 1952. Ary Frederico Torres assumiu o comando da nova instituição. (A relação completa dos presidentes do Banco está no final deste livro.) A história da criação do BNDES ocupa o epicentro do debate político-econômico ocorrido durante a década de 50, quando o Brasil precisava decidir que caminhos trilharia para acompanhar o reerguimento e expansão da economia mundial. O BNDES surgiu como instrumento importante tanto para elaborar análises de projetos como para ser o braço do governo na implementação das políticas consideradas fundamentais à decolagem da industrialização. O Banco atuaria como órgão formulador e executor da política nacional de desenvolvimento econômico. Seu papel como fornecedor de recursos para projetos que demandavam financiamentos a longo prazo foi essencial, já que na época o sistema financeiro nacional operava apenas com empréstimos de curto prazo (duplicatas de sessenta dias).

Criado o Banco, a CMBEU ainda funcionou até 1953, quando apresentou um relatório final, até hoje tido como a melhor análise que se produziu naqueles anos sobre a situação da economia brasileira. O relatório concluía que as deficiências de transporte e energia eram os dois maiores gargalos do crescimento. De fato, nos anos 50, a escassez de eletricidade chegava ao ponto de bloquear as atividades produtivas, e a malha ferroviária, inadequada e desarticulada, também entravava a industrialização. Seguindo as indicações da CMBEU, o BNDES estabeleceu que os primeiros investimentos se destinariam a reaparelhar portos e ferrovias, aumentar a capacidade de armazenamento, criar frigoríficos e matadouros, elevar o potencial elétrico e desenvolver a agricultura e as indústrias de base. A previsão era obter US$ 750 milhões junto ao BID. Já os fundos em moeda nacional necessários à realização dos planos do BNDES viriam de fontes diversas. A princípio, instituiu-se sobre o Imposto de Renda de Pessoas Físicas e Jurídicas um empréstimo compulsório de 15% (que deveria viger por cinco anos, mas que se estendeu por mais de uma década). Também se utilizariam 4% dos depósitos da Caixa Econômica Federal e 3% da receita anual da Previdência (excluída a cota da União). O BNDES fechou ainda um acordo de cooperação com a Comissão Econômica Para a América Latina e Caribe (Cepal) para formar um Grupo Misto de Estudos. Este se constituiria de servidores oriundos de vários departamentos do BNDES e da Cepal e teria o objetivo de auxiliar o Banco na obtenção e análise de dados macroeconômicos. A Cepal forneceu técnicos treinados para continuar e aprofundar os estudos sobre a economia brasileira e delinear um esquema de dados básicos que permitisse traçar programas de ação. O Grupo Misto procedeu então ao levantamento de séries estatísticas do período 1939-53, calculando índices de produção física, renda, consumo, inversões, transações com o exterior, produção agrícola, comércio de cabotagem etc. A fim de permitir melhor planejamento futuro, o BNDES também se associou ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro) para que essa entidade lhe fornecesse periodicamente dados sobre a evolução da renda nacional. O cuidado e a agilidade com que o BNDES passou a avaliar os projetos a ele apresentados fizeram despontar no Brasil uma nova cultura de análise de viabilidade. Doravante, o candidato seria julgado não apenas pelo cadastro de cliente, mas também pela coincidência de seus planos com a missão desenvolvimentista do Banco e pelo estudo de exeqüibilidade das propostas. Só em agosto de 1953 começaram a ser definitivamente ocupados os cargos criados pelo Conselho de Administração do BNDES, formado de Cleantho de Paiva Leite, Guilherme Arinos, João Daudt de Oliveira, João Pedro Gouvêa Vieira, Lucas Lopes e Paulo Quartin Barbosa. Antes, estavam em exercício apenas os responsáveis por alguns cargos de chefia, auxiliados por servidores da CMBEU ou prestadores de serviços. Nos principais postos, passaram a trabalhar seis advogados, dez economistas, doze engenheiros, 31 assistentes técnicos e 91 auxiliares administrativos – um total inicial de 150 funcionários. A sede do Banco, a princípio provisória, ocupando algumas salas do Ministério da Fazenda antes utilizadas pela CMBEU, transferiu-se em setembro de 1953 para um edifício de sete andares na rua Sete de Setembro, 48, no centro do Rio. Uma indicação, singela mas explícita, de que se fazia mesmo necessário desenvolver um parque industrial mais eficiente era o fato de que, após uma pesquisa de preços, o
Banco precisou encomendar no exterior todo o equipamento de escritório – como calculadoras e máquinas de escrever. O transporte, por tratar-se de atividade essencial e deficitária, foi o primeiro setor apoiado pelo BNDES: no ano da criação do Banco, o único financiamento efetivamente aprovado se destinou à Estrada de Ferro Central do Brasil, em 10 de novembro de 1952. Dentre os itens contemplados pelas novas melhorias na Central, achavam-se a remodelação das principais linhas de cargas e passageiros no percurso Rio de Janeiro– São Paulo–Belo Horizonte, com a troca ou instalação de 1,2 milhão de dormentes; a substituição de seiscentos quilômetros de trilhos velhos; o reforço de pontes; a construção de uma oficina de manutenção e um terminal de triagem de carga; a substituição de 1500 vagões de madeira por outros de aço; e o acréscimo de 765 vagões apenas para atender ao crescimento da produção siderúrgica de Volta Redonda. Foi o primeiro de muitos financiamentos do BNDES nos anos 50, quando o setor de energia e o de transportes absorveram 60% dos créditos aprovados. (Eis ai, portanto, o embrião do surgimento da RFFSA). Os 40% restantes se dividiram entre os demais ramos da indústria, como papel e metalurgia. Em 1953, assinaram-se cinco contratos: Companhia Nacional de Álcalis (RJ); Usina Rio Bonito (ES); Fábrica Nacional de Motores (RJ); Viação Férrea do Rio Grande do Sul (RS); e Superintendência das Empresas Incorporadas ao Patrimônio Nacional (Seipan), com sede no Rio. O número de empréstimos seguiu num crescendo durante a década: entre vinte e trinta projetos seriam contemplados a cada ano. Logo foi necessário fazer alguns ajustes para que o Banco funcionasse melhor. Em 1954, por exemplo, reavaliaram-se os orçamentos dos projetos, que tinham sido feitos com base em preços de 1952. A reavaliação se aplicava sobretudo àqueles orçamentos elaborados pela CMBEU, que representavam 81% dos empréstimos concedidos até 1954 e haviam ficado defasados ante uma inflação maior que a antes estimada. Além disso, os financiamentos internacionais não chegaram nem a 50% do esperado: a partir de 1953, numa reação à política nacionalista de Vargas sobre remessas de lucros, o Banco Mundial rompeu relações com o Brasil. Foi preciso compensar a diferença com moeda nacional (o que, por sua vez, reduziu sensivelmente as reservas do BNDES). Para tanto, o governo conseguiu aprovar no Congresso a prorrogação dos mecanismos arrecadatórios do Banco e lhe agregou novos fundos. Entre estes, estavam o Fundo Federal de Eletrificação (lei 2308, de 1954); o Fundo da Rede Ferroviária Nacional (decreto 37 686, de 1955); o Fundo Nacional de Pavimentação (lei 2 698, de 1955); e o Fundo Especial Para Substituição de Ramais Ferroviários Deficitários (também lei 2698). Em 1954, ademais, criou-se o Imposto Único Sobre Energia Elétrica. De maneira geral, a segunda metade da década foi decisiva para o país. Os anos do governo Juscelino Kubitschek (1956-60) foram marcados por importantes realizações.Tendo assumido a Presidência já com o projeto de levar o país a um novo patamar de crescimento, JK instalou rapidamente o Conselho Nacional de Desenvolvimento (CND). Este era integrado pelos ministros de Estado, pelos chefes do Gabinete Civil e do Gabinete Militar e pelos presidentes do Banco do Brasil e do BNDES. Começou a delinear-se então o Plano de Metas, cuja vigência corresponderia aos anos de mandato de JK. Estava lançado o famoso slogan “Cinqüenta anos em cinco”. O CND operava mediante os Grupos Executivos, e o mais importante dentre eles
foi o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia). Mas havia também o Grupo Executivo das Indústrias de Construção Naval (Geicon) e o Grupo Executivo das Indústrias de Mecânica Pesada (Geimape). O BNDES teve participação central no Plano de Metas, graças aos estudos desenvolvidos pelo Banco e graças também a seu presidente, Lucas Lopes, que atuou como principal articulador dos trabalhos e foi em seguida nomeado ministro da Fazenda, com a tarefa de elaborar um plano de estabilização econômica. Na assessoria aos Grupos Executivos e em todos os grupos de trabalho criados pelo CND para exame de questões específicas, os técnicos do BNDES assumiram papel decisivo na coleta e análise de informações e na formulação de políticas. Além disso, o Banco, na pessoa de seu presidente, passou a ter assento entre os membros dos conselhos destas instituições-chaves na condução da política econômica nacional: a Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), autarquia da União criada em 1945 para controlar o volume e a circulação do dinheiro no país; e a Comissão de Investimentos e o Conselho de Política Aduaneira, órgãos responsáveis pela política econômica, monetária e alfandegária do Brasil. Assim, o BNDES, como agente financiador de projetos, passou a expandir sua atuação para além do Programa de Reaparelhamento Econômico, ajustando-se às novas metas do governo JK. Todos esses investimentos começaram a refletir-se no cotidiano do brasileiro. Afinal, sem energia elétrica, como ligar os novos aparelhos de televisão, recentemente chegados ao país? Havia os teleteatros, a TV de vanguarda, o Alô, doçura, o Repórter Esso, o Mappin movietone. Em 1952, tivemos os primeiros jogos de futebol televisionados. Todos os programas eram pontilhados por “reclames” ao vivo. E havia todas as novas maravilhas elétricas: batedeiras, liquidificadores, secadores de cabelos… O aumento nas vendas de bens de consumo foi de tal magnitude que deu início à era das feiras de produtos: a Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit), a Feira de Utilidades Domésticas (UD) e o Salão do Automóvel espelhavam os novos tempos. Era a época do primeiro carro da família de classe média – talvez uma Romi-Isetta, ou quem sabe um Fusca? Nesse processo, o BNDES cumpria seu papel financiando usinas hidrelétricas, linhas de transmissão e siderúrgicas, para produzir o aço com que se fabricavam os eletrodomésticos e automóveis. Novas estradas faziam circular mais facilmente pessoas, produtos e idéias. Os números resultantes dos investimentos governamentais feitos no período JK (inclusive por meio do Banco) tinham sido expressivos. De 6,5 milhões de toneladas de petróleo refinadas em 1957, fomos para 16,5 milhões em 1960-1. De 90 mil toneladas anuais de celulose (também em 1957), passou-se quatro anos depois para 500 mil toneladas. Outro exemplo marcante era a indústria automotiva, que ficou no imaginário popular como forte símbolo juscelinista. Pode-se ter bem a medida do progresso industrial alcançado: em dois anos, de 1956 a 1957, triplicou o número de ônibus e caminhões fabricados no Brasil. E é bom lembrar que a produção automobilística articula toda uma série de atividades correlatas – a energia, a siderurgia, a borracha, a demanda por mais estradas. A cultura também respirava novos ares. Em 1951, inaugurou-se a I Bienal de São Paulo, que contou com uma das primeiras escadas rolantes fabricadas no país. A Companhia Vera Cruz tentava fazer do cinema uma indústria. O Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) não apenas colocava os palcos brasileiros em dia com o que havia de mais moderno no mundo, como também fazia escola: era a Escola de Arte Dramática (EAD), criada por Alfredo Mesquita. Nos palcos, pontificavam nomes como Cacilda Becker, Maria Della Costa, Cleide Yaconis, Tônia Carrero, Fernanda Montenegro, Teresa Raquel, Ruth Escobar, Ziembinski, Paulo Autran, Sérgio Cardoso, Walmor Chagas e Raul Cortez. Na literatura, Guimarães Rosa lançava em 1956 o romance Grande sertão: veredas. Mas o maior símbolo da década, aquele que resumia o dinamismo febril que invadia cidades, fábricas, corações e mentes, era Brasília. A construção da nova capital, prevista desde 1824, na primeira Constituição brasileira, simbolizava essa marcha rumo ao futuro. Em 24 de setembro de 1956, a Novacap, empresa criada para coordenar a construção de Brasília, dava início às obras. Erguida em tempo recorde onde antes só havia buritis, a cidade era mais que moderna. Projetada pelos arquitetos brasileiros Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, internacionalmente consagrados, a nova capital despontou arrojada, com suas linhas brancas e leves. Deixava para trás as formas tradicionais, a história antiga. Projetava-­se no futuro. Nos sonhos de cada brasileiro, o país comungava desse sentimento. E o BNDES se empenhava em realizá-lo.

Grifei no texto acima as principais ações do BNDES no setor de transportes.
Resumindo a CMBEU, Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, foi formada no âmbito do Ministério da Fazenda, e integrada por técnicos brasileiros e norte-americanos, durante o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra visando ao financiamento de um programa de reaparelhamento dos setores de infraestrutura da economia brasileira. A Comissão foi criada em 19 de julho de 1951 e encerrou seus trabalhos em 31 de julho de 1953. Era parte do plano norte-americano de assistência técnica para a América Latina, encarregada de estudar as prioridades para um programa de desenvolvimento do país. Essa comissão acabou estabelecendo como prioridades os setores de agricultura, energia e transporte.
No final, a Comissão acabou aprovando 41 projetos do Plano de Reaparelhamento Econômico elaborado pelo governo e que seriam financiados pelo Banco Interamericano de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) ou pelo Export-Import Bank (Eximbank).
Também como resultado do trabalho da Comissão, ficou estabelecido que seria criado o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico - BNDE, instituição encarregada de financiar e gerir os recursos para esses projetos captados no Brasil ou no Eximbank e no BIRD, responsáveis pelo financiamento em moeda estrangeira. O BNDE foi criado em 20 de junho de 1952, pela Lei nº 1.628, ganhando anos mais tarde em sua sigla e gestão o “S” ao final do nome, definindo a expressão de apoio ao “Social”, ficando, portanto BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
A CMBEU e o BNDE deveriam ajudar a introduzir no Brasil uma prática mais "racional" de gestão e aplicação de recursos públicos em investimentos, o que explicaria, guardadas as devidas proporções, as bases de formação da RFFSA, que num primeiro momento, não era aquela empresa que “faria desaparecer” as ferrovias.
Nota-se, não apenas no texto, que a implantação do rodoviarismo no Brasil se deu aceleradamente devido a importação do modelo norte-americano.
O BNDES como instituição financeira foi moldado nas recomendações da CMBEU,  que tinha por objetivo fazer o diagnóstico das ferrovias brasileiras e priorizar os investimentos. Pois bem a CMBEU transferiu progressivamente os recursos estrangeiros aplicados no Brasil do transporte ferroviário para o rodoviário, bem como moldou um modelo em que fez os capitais nacionais seguirem o mesmo rumo, se num primeiro momento a CMBEU e o BNDES liberaram recursos e apoiaram investimentos importantes como as melhorias do sistema elétrico e as condições de tráfego da EFCB, o fizeram apenas para que as ferrovias cumprissem o seu papel alimentando a cadeia de produção da indústria automotiva. Logo a seguir foi iniciado um contigenciamento no repasse de verbas para as ferrovias, exceto os ligados ao aumento da capacidade de transporte que envolvesse a indústria automotiva, como os programas de transporte de minério e produtos siderúrgicos. Na EFCB vê-se isso claramente, as demandas de compras de carros para os trens de subúrbio foram barradas a metade do necessário enquanto se compravam vagões e locomotivas para atendimento aos trens de exportação de minério e atendimento a CSN.
Com as ferrovias finalmente nas mãos do estado sob um comando central mas sem os recursos financeiros necessário, se consolidou o início a era da “pobreza ferroviária”, o início do fim.

 Central nos Anos 50, sem trens de passageiros e investindo pesado na exportação de minério crú. Mudança de prioridades