quinta-feira, 9 de junho de 2011

O ÚLTIMO TREM DA CENTRAL CORREU ANTES DA HORA

Por Roberto Amancio
Quem gosta de trem e se preocupa minimamente com o transporte público de massa deveria estar onde estivemos no sábado passado, dia 28, uma noite muito fria, chuvosa e triste!
Ás 15.25, saí de onde moro, no Morro dos Turcos* – quase ninguém sabe mais que lugar é este - e caminhei a pé até o “Estação” do Alto da Serra, mais precisamente o Boteco do Baixinho, meu grande amigo e dono do pésujo, mais pé-sujo do “Audaserra”.
Lá, por volta de 15.50h, já me aguardava o Ailson “Don” Pedro de Souza, jornalista do Diário de Petrópolis e assessor de imprensa do Sindicato dos Ferroviários da Leopoldina, meu amigo e companheiro que seguiria comigo rumo à nossa triste jornada.
Infelizmente, como não existe mais as oficinas dos trens da Leopoldina, nem a Estação Ferroviária do Alto da Serra – hoje um Conjunto do BNH, em vez de embarcarmos num trem para Raiz da Serra (Vila Inhomirim), tivemos que nos contentar em viajar pela Serra Velha, utilizando um ônibus da Viação Trel. Descemos pela estrada da Serra da Estrela, ambas completamente abandonadas; a Serra desmatada sem qualquer controle e a 
Estrada Real, que de Real só tem o nome, muito abandonada. Se tivesse de trem eu partiria do Alto da Serra, com o apito da Maria Fumaça, que com pujante a altiva, desceria nos trilhos da bitola estreita (“bitolinha”), amparada no terceiro trilho (a cremalheira). Após o apito, atravessaríamos a Rua Lopes Trovão, no pé do Morro da Oficina, imediatamente iniciaríamos a íngreme descida de serra, passando sob a Ponte Preta - ponte de madeira, preta como o próprio nome, passagem de pedestres entre a Volta Escura, caminho entre Chácara Flora e Vila Felipe e o Morro da Oficina, Castelo e Lopes Trovão. Depois o Tombo da Serra, Ponte da Grota Funda, Segunda Ponte, Poço da Turma – onde havia uma enorme caixa d’água que reabastecia as caldeiras das máquinas no super esforço da subida. Depois a Terceira Ponte, o Açude, Estação do Meio da Serra e Raiz da Serra. Mas isto é passado.
Por volta das 16.15 horas, embarcamos e descemos pela Estrada Real, de ônibus, sem o
glamour da viagem de trem. Ainda assim comentamos que gostamos muito do lugar e que, apesar de toda a agressão, a Serra de Estrela é muitíssimo bonita. Aos solavancos proporcionados pela estrada, seguimos a viagem, estendendo-a até Piabetá, onde desembarcamos por volta das 17.10 horas.
Uma vez que também há muito tempo foi extinto o trecho ferroviário Piabetá x Paia de Mauá (Guia de Pacobayba), imediatamente embarcamos num coletivo da Alpha Rodobus – empresa paulista que opera as linhas municipais de Magé e seguimos para o centro da cidade. Retão, passando pelo bairro Maurimárcia em direção à BR, seguimos paralelamente ou cruzando a linha férrea:
Parada Mauá, Parada Santa Dalila, Suruí, Parada Santa Guilhermina, Parada Fabrica EMAQ, Parada Iriri, Magé. Algumas delas desativadas. Chegamos ao triste destino, Magé, por voltas das 17.40h.
A Supervia assumiu o ramal Saracuruna x Guapimirim. Ela já operava os trechos Central x Saracuruna (elétrico) e Saracuruna x Raiz da Serra (Vila Inhomirim), com tração diesel, tal qual Saracuruna x Guapi. Os trechos da diesel, ambos da “bitolinha” são de dar pena. Dói o coração de qualquer vivente ver o lastimável estado das composições, tanto as locomotivas quanto os vagões. No mínimo faltam com respeito ao usuário! Mas infelizmente, em questão de transporte público, o descaso é quase unanimidade nacional.
A previsão seria do último trem da Central partir de Saracuruna às 20.15 horas, com chegada prevista a Guapi, em torno das  21.45/22.00 horas. No domingo os trens não circulariam e hoje, segunda-feira, trafegariam sob a responsabilidade da Supervia. Acontece que sábado era o dia da passagem do serviço e os maquinistas da Central/CBTU/Flumitrens eram todos aposentados. Nenhum deles compareceu e o trem não circulou,
Para uma população muito humilde, que pagava, R$ 0,60 (sessenta centavos) de passagem, a falta do trem, mesmo com seus parcos horários (somente três descendo para Saracuruna e três subindo para Guapi), a falta do trem é um “rombo nos seus bolsos”. Os ônibus são caros e as distâncias longas; Saracuruna x Magé – 23 Km e Magé x Guapi – 12 Km. Pela linha do trem!
A passagem do serviço, pelo pouco que pudemos observar, não foi muito organizada. Entendemos que deveria haver uma transição, que somente se concretizou parcialmente. Com absoluta certeza não houve motivo para festas, apenas os funcionários se lamentando por um encerramento de atividades tão melancólico, o desinteresse de muitos funcionários pelo bom desempenho do serviço, com doenças e avarias, supostamente propositais, para que os trens não circulassem; o abandono do estado, responsável pela operação do trecho. – falta de material e equipamentos, total ausência de investimentos...
A última composição de teste teve a licença concedida pelo nosso amigo grande Alfredo Ferreira (Alfredinho ou Godô), encarregado pelo CCO às 17.50h; horário em que partiu de Magé com destino a Guapimirim. A partir daí, o pessoal partiu para as últimas providências da dolorosa entrega da estação e demais dependências ao pessoal da Supervia.
Aproveitamos e tiramos algumas fotos, infelizmente as externas não ficaram boas por causa da pouca iluminação, além do péssimo retratista que ora lhes escreve. Na verdade, quase nada havia para ser entregue: umas poucas mesas, cadeira, sofás e armários totalmente deteriorados. Uma tristeza, não só pelo estado do patrimônio, como também pelos últimos momentos vividos naquele trecho, por homens que lá trabalhavam desde 1997, e que não sabem que futuro terão na empresa (Central), uma vez que ninguém foi aproveitado, pela nova operadora. Sem informações concretas, eles apenas sabem que os 150 ou mais funcionários do trecho serão remanejados para locais diversos: Bonde de Santa Tereza, Triagem, Barão de Mauá. Os aposentados deverão se desligados imediatamente; aqueles que já tiverem tempo e idade para a aposentadoria também deverão ser dispensados os demais... Só Deus sabe.
Sou suspeito para escrever, porque a minha família é amiga da família do Alfredinho. Lembro de quando a sua mãe, Dona Ângela, o carregava no ventre. Ele tem 46 anos, 27 na ferrovia. Palavras do dele
: “Eu me sinto como se estivessem me arrancando um braço ou uma perna! O Ailson e eu testemunhamos o fechamento do CCO e da estação, e a triste e comovente despedida entre os companheiros Alfredo, Darlan, Isaías e Jonas. Por volta das 21.30 horas, devidamente autorizados, os “últimos defensores de Canudos”, se renderam e entregaram a posição. Todos tristes, acompanhamos de forma melancólica, a última saída do local em que eles trabalharam tantos e tantos anos, agora com um futuro incerto. Cumprimentos e abraços de despedida, além das falas: “Muito obrigado pela força dada em todos estes anos”. “Agente se vê em Barão de Mauá”. Uma coisa é partir para um novo empreendimento, mas ser transferido sem saber para onde, para fazer o que ou ficar esquecido em alguma sala ou canto de oficina é muito diferente. Principalmente para que gosta do que faz e tem compromisso com trabalho. De verdade, nós não gostaríamos de estar na situação de nenhum deles. Ainda assim sofremos com isso. É possível que a qualidade dos serviços melhore para a população. Tomara! Entrementes, como sou cético por natureza, não acredito muito, porque a quantidade de horários foi mantida, a equipagem (trem) foi simplesmente adesivada com a logomarca da “nova” empresa. A página de hoje da Supervia publica:

"SuperVia inaugura operação do ramal Guapimirim
A SuperVia inicia operação no ramal Guapimirim no domingo, 29/05. A concessionária oferecerá uma capacidade diária de 4500 lugares com uma frota composta por trens com uma locomotiva e três carros. Visando a qualidade do serviço oferecido aos moradores da região, a SuperVia investiu na melhoria da via permanente, material rodante e telecomunicação. O objetivo é aumentar o nível de segurança do transporte para os clientes.
As estações disponíveis para embarque e desembarque são Saracuruna, Suruí, Magé, Jardim Nova Marília, Jororó, Citrolândia, Ideal, Capim, Modelo e Guapimirim."
 
Na hora da despedida dos amigos, comentei com o Ailson, que gostaria muito de gravar estes momentos e encaminhar para as “autoridades competentes” e ver se eles se sensibilizam com a situação. 
  (*) hoje Sargento Boening