terça-feira, 15 de dezembro de 2015

PATRIMÔNIO QUE MERECE RESPEITO - OPÇÃO DE FUTURO.



PATRIMÔNIO QUE MERECE RESPEITO - OPÇÃO DE FUTURO.
©Plinio F. Alvim (*) - Junho 2011.
Artigo publicado no site do Jornal Leopoldinense, no Blog Ferreosfera e outros; além de citado em dissertação de mestrado por aluna da UFF.

As Oficinas Ferroviárias de Além Paraíba-MG foram construídas por volta de 1880 para integrar a Cia. Estrada de Ferro Leopoldina - a primeira ferrovia criada em Minas, em 1871, inaugurada em 8 de outubro de 1874, por D. Pedro II; e também para servir à Estrada de Ferro D. Pedro II - depois, Central do Brasil – que também atendia ao município e à região. Desde então, durante esta sua longa trajetória, incluindo os períodos em que a Leopoldina esteve subordinada ao capital inglês (Leopoldina Railway) e vinculada à extinta Rede Ferroviária Federal, as Oficinas ficaram mais conhecidas como Oficinas Ferroviárias de Porto Novo.
Os milhares de funcionários que nelas trabalharam, no decurso de tantas décadas, são parte inseparável da identidade e da memória afetiva, social, política, cultural e econômica municipal. Eles e as Oficinas inspiram de estudos acadêmicos a obras artísticas. Muitos desses ferroviários galgaram posições diretivas de destaque em várias organizações e merecem ser lembrados também por seus outros talentos, como os escritores Victor José Ferreira e Ubyrajara de Souza, ambos integrantes e fundadores de instituições como o Movimento de Preservação Ferroviária e a Academia Ferroviária de Letras; e também o escultor José Heitor da Silva (um dos primeiros artistas que tiveram suas obras integradas ao acervo do Museu de Arte Negra, criado pelo ex-Senador Abdias Nascimento, de quem se tornou amigo), o desenhista e carnavalesco Rolando Amaral, os criadores do antigo ‘Minas Club’, o ex-deputado federal pelo PTB, Ezequiel Mendes e o escritor memorialista e ex-deputado estadual mineiro Joaquim Moreira Júnior, também do PTB; entre dezenas de outros. Inúmeros ferroviários aqui lotados foram vítimas de perseguições políticas ou administrativas, por participarem de associações e movimentos contrários aos modelos de gestão ou de governo praticados durante os vários regimes, democráticos ou de exceção, por que passou o país.
As Oficinas ocupavam, a princípio, uma extensa área e seus dois galpões mais antigos - que já tiveram cerca de cem metros de comprimento – foram erguidos sobre o aterro de um trecho da margem esquerda do Rio Paraíba do Sul. Construído inicialmente para se evitar a obstrução da ‘estrada’ que ligava os bairros de Porto Novo e São José, o aterro foi ampliado, mais tarde, para abrigar outras instalações. As Oficinas já tiveram suas imagens registradas, em fins do séc. XIX, pelo consagrado fotógrafo Marc Ferrez.
A Rotunda das Oficinas de Porto Novo/Além Paraíba é um edifício de forma circular, com área construída de cinco mil metros quadrados, também erguida por volta de 1880, que, junto às demais seções (calderaria, fundição, serralheria, carpintaria, almoxarifado, mecânica, pintura, elétrica, desenho, escritório, etc.), compunha o conjunto das Oficinas da Leopoldina. A Rotunda, com seus trinta boxes, tem capacidade para alojar, simultaneamente, igual número de locomotivas ou outros equipamentos rodantes, como carros-de-passageiros, vagões, autos-de-linha, etc. Nossa Rotunda é das maiores e das mais antigas entre as poucas ainda existentes no Brasil. Segundo o site da Internet ‘Estações Ferroviárias do Brasil’ só existem, atualmente, 5(cinco) Rotundas Ferroviárias construídas em 360 graus, em nosso país. Em Minas Gerais só existem três: Além Paraíba/Porto Novo, São João Del Rei e Ribeirão Vermelho; as outras duas são a de Barra do Piraí e Três Rios, ambas no estado do Rio de Janeiro. A de Porto Novo é a mais antiga.
Ao lado da Rotunda existe o prédio original, datado da mesma época, onde funcionou o Escritório Central da E. F. Leopoldina, que teve o teto de uma das salas restaurado, em 2006, pelo artista plástico Guilherme Diniz - por iniciativa do Engº. e também Acadêmico da AFL Rogério Lobo de Oliveira, então Diretor da Eletromecânica GITAL, empresa especializada em montagem e reforma de equipamentos ferroviários pesados, então locatária dos imóveis, desde a privatização das ferrovias vinculadas à Rede Ferroviária Federal S.A.
Nesse ano de 2006, em razão do imobilismo das autoridades e dos Conselhos municipais ligados à matéria - mesmo estando resguardada por tombamento através da Lei Municipal nº. 1829, de 14 de abril de 1998; e não obstante a explícita e bem fundamentada discordância deste pesquisador, através de ofício encaminhado à Câmara Municipal de Além Paraíba - em face da impossibilidade de sua presença em Reunião Oficial, convidado pela vereadora Simone Rezende - e em matéria e debate veiculados no ‘Jornal Agora’ e no Programa ‘Opinião’ da Rádio 102,7-FM, além da manifestação, também contrária, de outras pessoas e entidades preservacionistas e da veiculação de outros artigos na imprensa local, uma grande parte dos prédios das Oficinas foi absurdamente demolida, embora ainda estivesse em bom estado de conservação. O material resultante da demolição (muitos m3 do madeiramento em ‘Pinho de Riga’ e dezenas de milhares de ‘Telhas Francesas Legítimas’, fabricadas em Marseille, bem valorizadas no mercado de antiguidades; além de potentes máquinas e equipamentos das Oficinas) teria sido utilizado nas obras de construção de uma luxuosa casa, em um sítio particular.
Pouco tempo depois, já bastante fragilizada, uma parte da própria Rotunda desabou - e o restante encontra-se em precárias condições de conservação. Mas resiste, milagrosamente, de pé; talvez, por interseção de São José, o Operário, Padroeiro da Cidade e das Oficinas, Orago da Matriz - cuja imagem teria sido encontrada, em princípios do século XIX, nas águas da barra, hoje aterrada, que o Rio Limoeiro fazia com o Rio Paraíba do Sul, bem ali, onde foram construídas as Oficinas. Ironicamente, até a centenária madeira do telhado de sua Matriz vem sendo substituída por estrutura metálica - o que nos permite inferir que possa ter destino similar ao da madeira das Oficinas demolidas. O ‘Santo Carpinteiro’ deve estar muito entristecido... 
Vale ressaltar que quase todas as leis relativas ao tombamento do patrimônio histórico e cultural municipal de Além Paraíba foram redigidas de maneira dúbia - não se sabe por qual razão -, gerando muita confusão quanto à identificação dos bens que, de fato, deveriam ser por elas protegidos; o que, lamentavelmente, propicia a ocorrência de interpretações equivocadas que vulnerabilizam ainda mais os conjuntos, os entornos e outros inúmeros elementos que os compõem e que também deveriam ser resguardados; deixando-os até expostos ao risco de negociações e, ou, de ações inescrupulosas. Agora, fala-se, também, na cidade, na utilização de outros galpões e instalações das antigas Oficinas para fins comerciais – o que, muito provavelmente, redundará em mais um capítulo da inconseqüente desmaterialização do “Complexo Ferroviário Histórico de Além Paraíba”, implicando ou agravando a perda da identidade cultural da cidade e do seu povo.
OPÇÃO DE FUTURO - Antes de tudo, porém, é preciso entender que, quando se fala em Preservação - ferroviária, histórica, cultural e ambiental - e em implementação do Turismo em Além Paraíba, não se trata de idealismo utópico e infundado. Tanto uma quanto outro são, plenamente, factíveis no município e na região, dadas as nossas invejáveis especificidades - localização, patrimônio existente, legado natural, tradição, mão-de-obra especializada, etc. Estas características favoráveis devem ser avaliadas, particularmente, sob um prisma social e econômico, visto que potencializam a geração de emprego e renda para a população local; podendo gerar uma sensível melhoria do IDH - Índice de Desenvolvimento Humano - municipal. O diagnóstico elaborado por consultoria contratada para a execução da ‘Revisão do Plano Diretor Municipal’, em 2011, aponta nessa direção, a exemplo do que já fora detectado entre 1999/2000 por levantamento pormenorizado feito pelo SEBRAE-MG. Será que poderíamos, neste caso, aplicar o velho adágio popular: ‘O pior cego é aquele que não quer enxergar’?
Também é bom que se diga que, apesar da inconsistência de alguns comentários - por ignorância e desinformação, frutos de avaliações simplistas e, até mesmo, de observações ingênuas ou de interesses dissimulados -, quando se fala em preservação do patrimônio cultural histórico ferroviário de Além Paraíba, não devemos pensar tão somente no aspecto do bucolismo da “Maria Fumaça” e das antigas Estações e demais instalações ferroviárias – que eu não cheguei a conhecer em sua plenitude, visto que não nasci e nem morava aqui, mas que procurei estudar e aprendi a admirar e respeitar, mesmo não sendo alemparaibano e nem tendo nenhum tipo de vínculo profissional, pessoal ou familiar com a ferrovia. Não se trata, portanto, de saudosismo melancólico, piegas, extemporâneo.
É óbvio que os preservacionistas são favoráveis à idéia de se dar uma destinação prática e racional aos bens ferroviários históricos, adequada à realidade, com uma efetiva utilização cultural, lúdica, histórica, social, econômica, etc; sem, contudo, destruí-los, descaracterizá-los, inviabilizando o seu uso. Basta que se vejam os projetos já implantados e os que estão sendo desenvolvidos pelas entidades preservacionistas ferroviárias, Brasil a fora, em parceria com entidades públicas e privadas. Além Paraíba tem - e de sobra - todas as condições para a implantação de projetos análogos.
O que também surpreende é a falta de visão no que respeita ao não aproveitamento do que chamo de “Planta Industrial Ferroviária de Além Paraíba”. É pertinente salientar que a redução da área outrora ocupada pelas Oficinas também compromete o futuro do desenvolvimento econômico municipal, pois prejudica a irrefreável implantação do Turismo Regional que, como é do conhecimento das lideranças empresariais, culturais e políticas locais, já se encontra em pleno andamento - cujas bases foram lançadas no ano de 2000 pelo Governo municipal e pelo SEBRAE e Governo mineiros - e que tem na ferrovia e nos equipamentos históricos ferroviários um de seus principais atrativos, cujo potencial, se bem administrado, trará enormes benefícios para o município e para a região, em particular no que tange à geração de emprego e renda. A propósito, é bom lembrar que, nestas instalações, construídas há 130 anos, em que funcionaram as Oficinas da Estrada de Ferro Leopoldina (ou da Rede Ferroviária, como ficaram mais recentemente conhecidas) foram restaurados e readaptados, por técnicos de nossa cidade, os dezoito vagões temáticos e carros de passageiros que compõem o Trem Turístico de Ouro Preto à Mariana, inaugurado em maio de 2006, pelos então Presidente Lula e Governador Aécio Neves.
Além disso, cabe relembrar que a economia nacional clama por investimentos em infra-estrutura. São, portanto, recorrentes os projetos que visem à ampliação das ferrovias para melhorar a eficiência e minorar o custo do transporte de passageiros e de cargas; o que, num futuro próximo, também repercutirá a favor da diminuição das emissões de gases poluentes - tanto na utilização/adaptação de locomotivas movidas a fontes de energia não poluidoras, quanto na redução do número de caminhões, ônibus e automóveis circulando - mudando, pois, o arcaico e ineficiente exclusivismo do modal rodoviário brasileiro. É evidente que tais ações ajudarão a reduzir os riscos do inexorável Aquecimento Global. Embora nosso município tenha potencial que lhe garantiria lugar destacado em todo este processo de mudança, constata-se que, reduzido aquele espaço, a economia municipal fica limitada em sua capacidade de desenvolvimento, visto que a ‘Planta Industrial Ferroviária” não poderá mais ser ampliada, naquele local, ao contrário do que vem ocorrendo em Três Rios-RJ.



(*)Plínio Fajardo Alvim – Administrador diplomado pela UFRJ. Pós-graduado. Ferroviarista. Pesquisador de História e Cultura da Zona da Mata Mineira. Ambientalista. Membro da AFL-Academia Ferroviária de Letras, do MPF-Movimento de Preservação Ferroviária, do GBV-Grupo Brasil Verde e do Instituto CulturaR.