sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Estação Ferroviária de Porto Novo - 1871 - 2010


 O último dia 2 de agosto marcou o transcurso do 139º aniversário de inauguração da Estação Ferroviária de Porto Novo, localizada em Além Paraíba, MG. A cidade tem uma história singular; particularmente, no tocante à sua importância para a memória ferroviária. Até há trinta e poucos anos o município era conhecido, nacionalmente, como Porto Novo, ou Porto Novo do Cunha, embora seu nome já fosse São José D'Além Parahyba desde o século XIX. Iniciada entre o fim da década de 1950 e o princípio da de 1960, a extinção do transporte ferroviário de passageiros na Zona da Mata mineira e na vizinha Serra fluminense coincidiu com a desativação de grande parte da malha existente nestas regiões e com a decadência da economia municipal. Com o tempo, o nome da principal Estação Ferroviária local, Porto Novo, situada no bairro homônimo, deixou de ser confundido com o verdadeiro nome do município, qual seja, Além Paraíba. Fato inconteste é que Além Paraíba cresceu e ganhou notoriedade por causa das ferrovias – E.F. D.Pedro II (depois, Central do Brasil) e E. F. Leopoldina, incorporadas à Rede Ferroviária Federal, em 1957. Sua identidade cultural se confunde com a própria história do crescimento ferroviário regional. É impossível falar-se em ferrovias, tanto no âmbito estadual quanto no federal, sem mencionar Além Paraíba (ou Porto Novo); assim como é igualmente impensável qualquer referência à história econômica e social alemparaibana e regional sem aludir às ferrovias. Lamentavelmente, não só pelo descaso e omissão das autoridades responsáveis e de boa parcela da população – quer seja em função do desconhecimento de sua importância, quer em razão de outros interesses, todo o legado que compõe o que denomino de "Complexo Histórico Ferroviário de Além Paraíba" encontra-se em precárias condições de conservação e na iminência de se perder, irremediavelmente. 1784 - Tiradentes e o traçado da linha férrea – O Ciclo do Café – A ferrovia foi implantada em Além Paraíba quase 90 anos depois que Tiradentes esteve por aqui, desbravando as 'Áreas Proibidas', abrindo caminhos, construindo Portos e fundando Registros. Em 1784, Tiradentes criou o 'Porto ou Registro do Cunha' (embrião do município) e os Registros de 'Louriçal' (próximo a Chiador-MG) e de 'Ericeira' (perto de Santana do Deserto-MG) – ao longo da estrada que abriu em direção ao 'Registro do Paraibuna', localizado nas proximidades das atuais Simão Pereira, Matias Barbosa e Juiz de Fora. Importante notar que, sobre o leito dessa estrada - construída por Tiradentes à margem esquerda do Rio Paraíba do Sul, a partir do Porto do Cunha - é que foi implantada a Linha da 3ª Seção da Estrada de Ferro Dom Pedro II, que chega a Porto Novo. Com o café, introduzido nos primeiros decênios do século XIX, expandiu-se a escravidão. O crescimento da cafeicultura em nossa região trouxe a ferrovia para suprir a deficiência de transporte para escoamento da imensa produção da Zona da Mata Mineira. Podemos afirmar que o DNA dos habitantes desta área tem a cor negra do café, da fuligem do trem e da tez do escravo africano. 1866 – Christiano Otonni e a Cia. Mineira - A Estrada de Ferro Dom Pedro II foi construída, nesta região, a partir de iniciativa de Christiano Benedicto Otonni que, mesmo tendo deixado a presidência daquela Ferrovia, criou uma empresa para a construção do trecho. Diz ele, em sua autobiografia: "... convidei pela imprensa os interessados para levantarem os capitais precisos e organizar duas companhias que se encarregassem das construções, mediante contrato com o Governo. Uma que denominei - Companhia Mineira - se incumbiria dos 61,5 de Entre Rios* a Porto Novo; a outra - Companhia de Campo Belo - ... Frustrou-se a 2ª tentativa; mas a 1ª deu um belo resultado e muito honroso a mim: os n egociantes; fazendeiros, capitalistas, comissários de café, todos os interessados na projetada via de comunicação, ligaram-se; e o capital emitiu-se com facilidade, sendo a condição de todos os subscritores – que fosse eu gerir a empresa." Christiano também emitiu Carta-circular aos fazendeiros da Mata, solicitando a subscrição de ações da empresa. Este pesquisador possui exemplar desta carta, datada de 30 dezembro de 1866 e dirigida a seu tetravô, Joaquim Honório de Campos, então futuro Barão do Rio Pardo, fazendeiro em Piedade, atual Piacatuba, município de Leopoldina, MG. (*Entre Rios é a atual Três Rios, RJ). 1869 - Chiador, antes de Porto Novo - Em 27 de junho de 1869, neste ramal, foi inaugurada a Estação de Chiador, a primeira estação ferroviária de Minas Gerais. Este pesquisador possui carta, também endereçada a seu ancestral acima citado, datada de 1º de agosto de 1869, emitida pelos comissários de café 'Maia, Irmão e Cia.', através da qual ele é informado que sua encomenda – "receita de generos" - será remetida "para a Estação do Chiador". 1870 - Pereira Passos e a construção da ferrovia - Um dos principais nomes que atuaram na supervisão da obra desta estrada foi o Engº. Francisco Pereira Passos que, na década de 1880, também construiria a Estr. de Ferro do Corcovado, no Rio, e a Estr. de Ferro Curitiba-Paranaguá, no Paraná; ambas em sociedade com o também Engenheiro João Teixeira Soares, que viria a ser dono da Fazenda Sant'Alda, cuja sede foi por este projetada e construída na década de 1890 e ainda está de pé. Depois, Pereira Passos viria a ser Prefeito do Rio de Janeiro. 1871 - A inauguração das Estações de Porto Novo e de Simplício - Em 2 de agosto de 1871, com a provável presença do Imperador e de inúmeras autoridades do império, foi inaugurada a Estação de Porto Novo, ponto terminal da referida 3ª Seção da Estrada de Ferro D. Pedro II - que receberia o nome de Central do Brasil, após a Proclamação da República. O tráfego desta 3ª Seção foi aberto, oficialmente, no dia 6 de agosto. Também em 2 de agosto foi inaugurada a Estação da Conceição, depois denominada Estação de Simplício, em homenagem ao Comendador Simplício José Ferreira da Fonseca, então proprietário das terras que a circundam e em cujas proximidades está sendo construída a Usina Hidrelétrica de Simplício, de Furnas Centrais Elétricas. 1874 - Porto Novo, o Marco Zero da Estrada de Ferro Leopoldina - Além Paraíba é o berço da Estrada de Ferro Leopoldina, a primeira ferrovia genuinamente criada em Minas, em 1871, cujas atividades tiveram início no dia 8 de outubro de 1874, sendo inaugurada por Dom Pedro II. Depois, a Leopoldina expandiu-se até outros estados, incorporou outras Ferrovias e chegou ao Rio de Janeiro, a então Capital do Brasil, em fins de 1926, quando foi inaugurada a Estação Barão de Mauá, na Avenida Francisco Bicalho. Daí deverá partir o "Trem Bala", projeto orçado em mais de R$ 40 bilhões, para a ligação ferroviária, em alta velocidade, entre Rio-São Paulo-Campinas. O "Marco Zero" da E. F. Leopoldina encontra-se, exatamente, na Estação de Porto Novo, onde era feita a sua conexão com a E. F. Dom Pedro II. Cabe enfatizar que a E.F. Leopoldina recebeu este nome em razão de ter sido criada para levar o transporte ferroviário à cidade de Leopoldina, MG. 1881 – Dom Pedro II e a Imperatriz passam por Porto Novo - Em abril de 1881, o Imperador D. Pedro II e a Imperatriz Dona Teresa Cristina, quando de sua memorável viagem ferroviária à província mineira, visitaram diversas cidades desta região. O Imperador deixou registradas em seu diário muitas das ocorrências havidas durante a jornada, como sua passagem por Além Paraíba (Porto Novo), Pirapetinga, Vista Alegre, Leopoldina, Cataguases, São João Nepomuceno, Bicas, Rio Novo, São Geraldo, Presídio (Visc. Rio Branco), Ubá e outras. Além de consignar o pernoite na Fazenda do Pântano, do então futuro Barão de São Geraldo, entre 28 e 29 de abril de 1881: "28 (5ª fª)... Achei Sapucaia muito adiantada e ainda mais Porto Novo. Aí tomei o vagão aberto e muito cômodo a estrada de ferro da Leopoldina (sic). O Melo Barreto foi me informando de tudo. ... Estação do Pântano e daí a pé até casa que é uma espécie de palácio sobretudo internamente e situada no cimo de uma colina de Santos Silva um dos diretores da Leopoldina casado com a filha de Antonio Carlos Teixeira Leite, que era o dono da fazenda há 2 anos e sobrinha do barão de Vassouras (sic). Cheguei aqui às 3 ¼. Já tomei excelente banho em quarto destinado a esse fim e o jantar é às 6h. ... Jantar às 6h. Depois conversei. ... 29 (6ª fª) 5h ¼. Já tomei banho de chuveiro. ... Às 5 ½. Vou ver a capelinha da fazenda e parte o trem às 6h. A capela é pequena, porém singela e bonita internamente. Roseava a neblina quando para ela subia. Partida às 6 h". No dia 30 de abril de 1881, um sábado, retornando de Ubá, D. Pedro II passou por Leopoldina, aonde chegou às 11 ½ h; sendo recebido por comissão formada por membros do Club Agrícola, da Irmandade do Santíssimo e por Oficiais da Guarda Nacional, tendo à frente o Ten.cel. Antonio Maurício Barbosa. Os integrantes da Câmara - com matizes republicanos - não participaram dessa comissão. Também foi saudado por quatro bandas-de-música. Almoçou, visitou a Cadeia, a Câmara, o Colégio N. Sra. do Amparo e a Matriz. Embarcou na Estação às 13 ¾ h, com destino à Côrte. Baldeou em Vista Alegre. Ao findar a viagem, escreveu: "Seguimos cerca das 2h ¼. 4h 40' chegamos ao Pântano. 5h São José de Além Paraíba. A igreja está ficando bonita. 11h. 40'. Chegada com chuva à estação da Quinta (Quinta da Boa Vista, no Rio). O Buarque (Conselheiro Manuel Buarque de Macedo, Ministro da Agricultura) entrou no trem na estação de Porto Novo do Cunha". 1886 - O fabricante de pianos visita Leopoldina e passa por Porto Novo - Cristiano Carlos João Wehrs – conceituado fabricante e comerciante de pianos no Rio de Janeiro, além de escritor memorialista, também descreve a sua passagem pela Estação de Porto Novo e pela Estrada de Ferro Leopoldina. Em 1886, o ainda jovem profissional Cristiano Wehrs, seguindo determinação paterna, foi executar alguns trabalhos na vizinha cidade de Leopoldina-MG. Para chegar ao destino - e para de lá voltar – precisou baldear na Estação de Porto Novo, onde era feita a conexão entre a Estrada de Ferro Dom Pedro II e a Estrada de Ferro da Leopoldina. Na viagem de ida, em 15 de setembro de 1886, Wehrs descreve a Estação: "... pude verificar que a estação é bem grande e seu movimento, intenso. O prédio da estação é bonito e suas instalações, cômodas. Enquanto o trem de D. Pedro II fica no lado sul, o de Leopoldina pára no lado oposto. A plataforma é muito extensa e construída de pedra de cor e cimento. Reinava aqui grande aglomeração humana." 1889 - Silva Jardim sofre atentado em Porto Novo – Na madrugada de 16 de março de 1889, pouco antes de embarcar na Estação de Porto Novo, com destino à Valença, o Dr. Antonio da Silva Jardim – o afamado Propagandista da República – é atacado, em São José de Além Parahyba, por um grupo de monarquistas, chefiados pelo Vigário local. Note-se que, no dia 14, ele também já sofrera ameaças no distrito de Angustura, onde, durante grande banquete, proferira palestra sobre as idéias e os ideais republicanos. É o próprio Silva Jardim quem relata o episódio: "... Passamos, mas mal tínhamos dado alguns passos, dispararam alguns tiros sobre nós. ... Afinal, chegamos a Porto Novo. ...". Nesse mesmo livro de memórias, Silva Jardim também transcreve parte de uma carta que seu amigo Barão Homero de Mello(sic) havia lido, mencionando um outro atentado: "... Capanga armado esperando o dr. Jardim na Estação do Porto Novo do Cunha para assassinal-o. Intervieram e impediram, ...". 1893-1909 - Capistrano de Abreu em Porto Novo - O renomado historiador João Capistrano de Abreu, apontado como um dos mais brilhantes, respeitados e produtivos pesquisadores da História do Brasil, passou incontáveis vezes pela Estação de Porto Novo, não só na condição de passageiro, mas, também, como constante usuário dos serviços postais da ferrovia. Capistrano costumava ficar, por longas temporadas, na Fazenda Paraíso, onde escreveu boa parte de sua grande obra. A fazenda ainda existe, situada na margem fluminense do Rio Paraíba do Sul, no atual Distrito de Jamapará – Sapucaia-RJ. Em carta ao amigo José Veríssimo, datada de 17 de junho de 1909, escreveu: "Paraíso, donde lhe escrevo, fazenda do Virgílio Brígido, pertence ao Rio, mas a estação mais próxima fica em território mineiro, à esquerda do Paraíba, chama-se Porto Novo do Cunha. Vim passar alguns dias e tenho lucrado muito, talvez porque, tendo vindo aqui pela primeira vez, haverá 15 anos, sinto agora este peso de menos." 1895-1907 - A Casa onde viveu o Jurista Sobral Pinto – Em Porto Novo nasceu o seu interesse pela Justiça - Também cabe enfatizar que em Além Paraíba viveu, entre 1895 e 1907, ainda menino, o Jurista Heráclito Fontoura Sobral Pinto – "O Patrono da Legalidade" -, cujo pai, Príamo Cavalcanti Sobral Pinto, foi Agente das duas Estradas de Ferro que cruzavam a cidade: a Central do Brasil e a Leopoldina. A casa onde ele e sua família residiram ainda existe, cercada por frondosas mangueiras, em área anexa à Estação de Porto Novo. É o próprio Sobral Pinto quem nos diz onde brotou o seu desejo de seguir a carreira jurídica: "Minha primeira manifestação de interesse pelo Direito surgiu em virtude de um episódio ocorrido na cidade onde eu residia, São José de Além Paraíba, no Distrito de Porto Novo do Cunha." A grandeza dos Torreões da Estação - O Museu - O Centro de Cultura – O prédio da Estação de Porto Novo, com a grandiosidade de seus Torreões, onde funcionaram o Hotel e o Restaurante da Estação, abriga as instalações do CEFEC – Centro Ferroviário de Cultura, de reconhecida importância por suas atividades culturais e pedagógicas. Em ambiente contíguo, antigo Armazém da Estação, localiza-se o Museu de História e Ciências Naturais, uma das principais entidades culturais da Zona da Mata mineira, promotor de inúmeras atividades, com importante acervo da memória da cidade, biblioteca, ponto de informações turísticas e sala de projeção áudio-visual. O Trem do Chorinho - É um projeto de Trem Turístico e Cultural com um forte viés social que foi desenvolvido pela ONG Instituto CULTURAR, em parceria com a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária – Regional Porto Novo. Terá como ponto de partida a Estação de Porto Novo e poderá se estender à cidade de Volta Grande (com uma vertente, via carruagens, ao distrito de Angustura), podendo prolongar-se a alguns municípios vizinhos, Estado do Rio de Janeiro. Tom Jobim, Ivan Lins e Milton Nascimento reverenciam a Estação de Porto Novo- Alguns dos maiores nomes da Música Popular Brasileira já estiveram na Estação de Porto Novo ou a ela se referiram, em seus trabalhos. Tom Jobim vinha, às vezes, a Além Paraíba, em razão da proximidade desta cidade com o sítio que ele possuía no vizinho município de São José do Vale do Rio Preto-RJ. Em uma dessas ocasiões, foi flagrado observando – com expressão tristonha – as ruínas da Estação de Porto Novo. Seu filho, Paulo Jobim, em parceria com Ronaldo Bastos, compôs a canção, abaixo mencionada, gravada no disco Clube da Esquina 2. Milton Nascimento, em gravação para o espetáculo musical 'Último Trem' – Grupo Corpo, de Belo Horizonte - interpreta a música intitulada 'Olho D'Água', dos autores já aludidos, cuja letra menciona a Estação de Porto Novo. Ivan Lins, entusiasta da preservação ferroviária, foi o que mais explicitamente posicionou-se contra o descaso de que é vítima a Estação de Porto Novo. Em visita a Além Paraíba, em agosto de 1996, a convite do Prof. Vitor José Ferreira, Presidente do Movimento de Preservação Ferroviária – MPF, Ivan ficou extasiado com a grandiosidade e estarrecido com o abandono da Estação. Disponibilizou-se, inclusive – e gratuitamente -, em realizar um espetáculo com o fito de arrecadar fundos que possibilitassem a recuperação da Estação. Anteriormente, já se emocionara ao ver, no Rio de Janeiro, a Exposição Fotográfica "Estação: Cor & Dor", dos cataguasenses Carlos Torres Moura e Pury. Para soltar o "nó" que lhe apertava o peito e lhe embargava a voz escreveu a crônica – misto de alerta - "Estação: o canto da Dor", que começa dizendo "Trem para o mineiro é tudo". E termina: "Quem sabe nosso canto, nosso grito de protesto, ajude a salvar a bela Estação Ferroviária de Porto Novo e a ressuscitar o Trem, esse transporte tão importante para a estação futuro". Documentário 'O Descaso' mostra queda de parte do Torreão de Porto Novo - Em março de 2005, este pesquisador, prevendo o desabamento iminente da parte superior de um dos Torreões da Estação de Porto Novo, deixou posicionada uma câmera de vídeo, em frente à cabeceira do prédio; filmando durante cerca de 25 dias, sem parar. A cada minuto decorrido, a câmera gravava a imagem por um segundo. E o que estava previsto aconteceu. No dia 27 de março, às 10 horas e 30 minutos, parte da lateral de um torreão desabou. Em razão do posicionamento da câmera e do dispositivo de tempo para gravação, as imagens registram a poeira resultante da queda e, no minuto seguinte, o acúmulo de entulho ao lado do torreão deteriorado. Em 2006, estas imagens e dezenas de outras foram utilizadas no Documentário "O Descaso" (Textos, roteiro, locução, direção e produção de Rogério Lobo e Plinio Alvim; Câmera e Edição de Rodrigo Salgado). O Descaso conta a história da Estação de Porto Novo e de seus belos Torreões, denuncia o abandono em que se encontram e convoca a população para tentar preservá-los. Desde então, ele vem sendo exibido em inúmeros eventos culturais. Possíveis origens do abandono do passado ferroviário de Além Paraíba – O abandono da Estação de Porto Novo e dos demais bens que formam o "Complexo Histórico Ferroviário de Além Paraíba" é bastante antigo e já atravessa vários governos municipais e algumas gerações alem paraibanas. Mas quais teriam sido as origens motivadoras de tamanha falta de respeito a este passado ferroviário? Certamente, não foram somente o desconhecimento sobre sua importância, a falta de visão econômico-social de longo prazo e os interesses políticos ou pessoais – os revelados e os dissimulados. Uns dizem que foram as mudanças da economia regional e local. Outros, que foi a expansão do rodoviarismo e a decorrente extinção do transporte ferroviário de passageiros e de parte da malha ferroviária na região; fazendo com que as novas gerações não se identificassem com o ferroviarismo. Existem, ainda, aqueles que acreditam que foi a perda de prestígio da Classe Política municipal. Há, também, quem afirme que, para neutralizar a ação dos movimentos sindicais ferroviários, os governos ditatoriais militares optaram pela extinção das ferrovias na região. Esta lógica poderia ser, assim, resumida: sem ferrovias não haveria ferroviários e, sem estes, não haveria movimento sindical ferroviário; portanto, os grupos de oposição ao Governo central ficariam enfraquecidos. Eu defendo a idéia de que todas estas premissas contribuíram – pouco mais, ou menos – para chegarmos ao atual quadro de quase total abandono desse rico patrimônio cultural ferroviário. Quanto à última, suponho, ainda, que os governos municipais locais, do período pós-1964, tenham se eximido de quaisquer ações que pudessem favorecer a manutenção do 'Complexo Histórico Ferroviário de Além Paraíba', considerando que: a) a realidade econômica municipal era outra, sedimentada em grandes estabelecimentos industriais, comerciais, agropecuários e de serviços - completamente diferente da atual; b) ainda não se falava em Turismo Sustentável e Preservação Histórica, Cultural e Ambiental, como impulsionadores da economia – geradores de emprego e renda; c) nessa época, os bens históricos ferroviários pertenciam ou estavam sendo usados pela Rede Ferroviária Federal S.A., que tinha como controladora a própria União; d) os políticos locais talvez tenham ficado temerosos em executar projetos e ações preservacionistas que pudessem se confundir com atitudes de confronto ao Governo central – justificadamente, em razão dos episódios de perseguição sofridos por alguns líderes sindicais ferroviários locais. A propósito, é interessante notar que, paradoxalmente, cerca de duas décadas depois, o movimento sindical brasileiro foi reativado, justamente, no seio da indústria metalúrgico-automobilística, cujo principal líder – Luiz Inácio Lula da Silva – acabou por tornar-se, já no primeiro decênio do século XXI, o Presidente da República – cujo governo tem entre seus principais objetivos a retomada do crescimento nacional, para o qual muito contribuirão a revitalização e ampliação das ferrovias no país. Esta é, apenas, uma pequena parte da riquíssima história ferroviária de Além Paraíba e região. ©Plinio Fajardo Alvim – Pesquisador da História da Zona da Mata Mineira. (*) Extraído, com alterações, de "A importância do trem para Além Paraíba", deste autor.