segunda-feira, 3 de junho de 2013

Inimputávies?

O Globo, 24/05/2013

Sérgio Magalhães

Acidentes que se multiplicam, veículos com centenas de infrações, multas não pagas, carros sem conforto — são tantas as queixas sobre os ônibus que é justo indagar: eles são inatingíveis? Cobrado, diz o presidente da Federação das Empresas de Transporte: “O Rio cresceu sem planejamento.”

As cidades modernas, resultantes da industrialização, tornaram-se grandes cidades quando o sistema de transporte coletivo foi capaz de transportar amplos contingentes. Elas se apoiaram no transporte rápido, nem sempre subterrâneo, em geral sobre trilhos. Londres inaugurou o metrô nos anos 1860; Paris, em 1900.

Ao contrário do que se diz, o Rio cresceu bem estruturado — pelo transporte e obedecendo à geografia. Quando a cidade precisou se expandir para além da área que hoje chamamos de Centro, ela o fez apoiada pelos trilhos. Na Zona Norte, ampla e larga, ainda no século XIX construiu as linhas ferroviárias suburbanas. Na Zona Sul, área restrita, foram os bondes que orientaram o crescimento. Os bondes ainda interligavam as ferrovias em delicados percursos. Era uma boa estrutura.

Mas, nos anos 1960, as cidades brasileiras foram levadas a desmobilizar o modo sobre trilhos, adotando o modo rodoviário (implantava-se a indústria automobilística). Para o Rio, cidade então mais bem estruturada do País, urbanisticamente, foi uma hecatombe. Não modernizou os trens, que se degradaram, e fez um metrô peculiar: isolado das ferrovias, uma só linha, ao invés de uma rede. Apostou no ônibus e no carro. Nem o ônibus é adequado para grandes percursos, nem o carro o é para grandes contingentes. Assim, entre as cidades brasileiras, no Rio é maior a percentagem de pessoas que gastam de uma a duas horas na viagem casa-trabalho (ANTP, 2011).

A cidade teve muitos de seus melhores espaços públicos desqualificados pela invasão rodoviarista, no Centro, na orla, nos bairros. A dupla automóvel-ônibus é gulosa por território; quando imposta hegemonicamente a tecido urbano preexistente, rompe a escala dos lugares, inibe a relação cidadão-cidade, exclui alternativas de mobilidade.

Não, o Rio não cresceu sem planejamento. A cidade teve imposta uma troca modal em desacordo com sua estrutura. Está em tempo de reconhecer o erro (a indústria automobilística já é forte). O rodoviarismo ainda pressiona para transformar todo tecido urbano em área de passagem.

O Rio precisa redesenhar sua mobilidade em sintonia com suas estruturas urbanísticas. Onde a urbanização é estruturada pelo automóvel, como na Barra, adequando-se a esse modal; mas, no sistema metropolitano e na Zona Norte-Zona Sul-Centro, dando ênfase a modos de alto rendimento, tipo metrô em rede e transformação dos trens em metrô.

A indefinição político-institucional da cidade metropolitana certamente responde pela ausência de respostas. É inércia que há décadas penaliza a população.

Todos os modos de transporte têm o seu lugar. Mas não é por reconhecermos sua óbvia inadequação como principal modo de transporte da metrópole que os ônibus se tornam inimputáveis.

A propósito: Há melhor sintonia com a estrutura do bairro que o bondinho em Santa Teresa? Quando voltará?

Sergio Magalhães é Arquiteto. smc@centroin.com.br



Concentração de CO2 atinge nível considerado limite pela ONU

GLOBONEWS, 23/05/2013

Para Sérgio Besserman, cidadão deve pressionar políticos por mudanças.
Segundo Roberto Schaeffer, economia deve garantir a sustentabilidade.
Pela primeira vez na história da humanidade, a concentração do dióxido de carbono, o principal gás de efeito estufa, atingiu 400 partes por milhão na atmosfera, nível que é considerado limite pelos cientistas para evitar os piores cenários da mudança climática. O volume foi registrado por observa-tórios internacionais no dia 9 de maio e ganhou as manchetes de diversos jornais do mundo todo.

De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), a temperatura média do planeta poderá subir entre 2ºC e 6ºC até o final deste século. Entre as muitas consequências previstas, estão a aceleração do degelo, tempestades mais violentas, graves impactos sobre a biodiver-sidade e milhões de refugiados ambientais que terão que buscar outro lugar para viver. E as emissões continuam crescendo.

“O que está por trás das emissões, basicamente, é a queima de combustíveis fósseis. Não há como a economia mundial continuar crescendo ou se desenvolvendo baseada em um combustível que, quando queimado, resulta em CO2”, afirma o professor do Departamento de Planejamento Energético da COPPE/UFRJ e membro do IPCC Roberto Schaeffer.

Segundo o professor de economia da PUC-Rio e coordenador do Projeto de Adaptação às Mudanças Climáticas do município do Rio de Janeiro Sérgio Besserman, será preciso mudar o funcionamento das cidades e da economia, além do padrão de consumo. “É uma mudança muito radical, mas é para melhor”, diz.

É possível uma agenda positiva, onde o mundo do futuro pode ser melhor que o do presente"
Roberto Schaeffer
Quando os líderes ficam em uma posição de imobilidade, o que eles estão dizendo é: ‘eu não tenho nada a ver com o futuro’."
Sérgio Besserman
A restrição a certas práticas hoje difundidas pode ser uma maneira de reduzir a emissão de poluentes. Para Schaeffer, o poder público deveria coibir a utilização do carro e incentivar o uso do transporte público e de bicicletas. “No momento em que você cria todas as facilidades para o automóvel e todas as dificuldades para o ônibus ou para a bicicleta, o mundo do automóvel é melhor. A gente tem que inverter essa agenda”, avalia o especialista.

O ano de 2015 pode ser decisivo para o futuro do planeta. Em dois anos, todos os objetivos do desenvolvimento sustentável acordados na Rio+20 devem ser cumpridos e, segundo a Agenda do Clima, deverá ser assinado um novo acordo global para evitar os piores cenários do aquecimento. “É um momento político para todos os cidadãos pressionarem”, aponta o economista Sérgio Besserman.

Tanto ele quanto Schaeffer concordam que não é preciso esperar 2015 para cobrar mudanças das autoridades e que a sustentabilidade deve ser um tema prioritário nas eleições presidenciais do ano que vem. “Não é mais aceitável que a questão ambiental não seja um dos pontos mais importantes da agenda de alguém que quer ser presidente. O mundo do futuro não se fará apenas de um país que tem uma economia que cresce com inflação baixa, mas que tenha uma economia cujas bases garantam a sustentabilidade”, avalia o membro do IPCC.

Para Besserman, a temática ainda não é capaz de decidir a eleição no país, como acontece em outras nações do mundo, mas já há parte do eleitorado que baseia seu voto nela. “O Brasil é um dos raríssimos países do mundo que têm mais a ganhar com essa mudança do que a perder. Nossa economia é mais competitiva nesse mundo que muda do que no mundo atual.

Veja a reportagem em http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2013/05/brasil-sera-mais-competitivo-em-um-mundo-sustentavel-diz-economista.html