Um
homem apaixonado, preocupado e ao mesmo tempo amargurado com a
realidade do Sistema de Bondes de Santa Teresa. Assim pode se definir o
Engenheiro Luiz Antonio Cosenza uma pessoa que por questões sentimentais
é extremamente envolvida com o sistema de bondes e, por questões
profissionais, é um dos que mais entende do assunto.
No
final da década de 90, Cosenza ocupava o cargo de diretor técnico da
CBTU – Companhia Brasileira de Trens Urbanos – que era responsável pelos
bondes e, em 2002, assumiu a presidência da Central Logística empresa
que passou a administrar o sistema de bonde. Neste período, eram
recorrentes os comentários de que o principal e mais simpático meio de
transporte da cidade seria privatizado ou municipalizado.
Os
bondes naquela época pertenciam à CBTU e nossa opção foi a de comprar o
sistema de bondes para que ele pudesse ser preservado. Não gostávamos da
idéia da privatização e, segundo comentários, caso o sistema fosse
municipalizado o prefeito César Maia iria demitir os funcionários.
Foi
o zelo, o reconhecimento da importância histórica e cultural que os
bondes representam para a cidade e, principalmente, a amizade que passou
a ter com os funcionários que fez Cosenza se aproximar e a se preocupar
cada vez mais com a realidade dos bondes. Ele passou a entender
rigorosamente de tudo em relação ao sistema bondes: as condições
precárias da garagem, o ultrapassado sistema de fiação da rede elétrica,
as irregularidades no sistema de trilhos, da realidade dos funcionários
e do descaso do poder público que insistia em adiar a busca por uma
solução. Uma aproximação tão grande com os bondes, fez com que ficasse
também muito próximo à realidade e aos problemas de Santa Teresa.
O
trágico acidente ocorrido no último dia 27 mais uma vez aproximou o
engenheiro do Sistema de Bondes. Atualmente ocupando a vice-presidência
do CREA – Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura – uma de suas
atribuições é o trabalho que exerce na Comissão de Analises e Prevenção
de Acidentes da Câmara de Engenharia Elétrica. Em conseqüência disto, é
um dos responsáveis em apurar o que aconteceu exatamente no trágico
acidente em Santa Teresa.

Aos
59 anos, Cosenza procura não emitir qualquer opinião definitiva ou
buscar culpados para a tragédia. Mantém sua opinião de ser contrário ao
sistema de privatização, diz que não medirá esforços para que os fatos
sejam definitivamente apurados. Pede atenção das autoridades não só para
com o bonde, mas também para com Santa Teresa, pois em seu entender, o
bonde é uma extensão do bairro e sem os bondinhos Santa Teresa perderia
praticamente todo seu charme, beleza e encantamento.
Capital Cultural – Irresponsabilidade, incompetência, descaso, fatalidade... O que aconteceu em Santa Teresa?
Cosenza
- É claro que, sentimentalmente, existe dentro de mim e de cada um de
nós que sabemos a importância dos bondinhos uma grande amargura.
Profissionalmente falando, qualquer diagnóstico feito de forma emotiva
seria irresponsável e leviana. Nosso objetivo é saber a real causa do
acidente. Temos que ficar atentos para não colocarmos a culpa em quem
não é culpado. Às vezes vai se adiando, vai se postergando o serviço de
manutenção e quando acontece um acidente ou uma tragédia, partimos para
apontar culpados. No Brasil não temos esta característica de não nos
preocuparmos com a manutenção, mas depois que uma tragédia acontece,
temos a mania de buscarmos culpados. Sempre colocamos a culpa nas costas
do piloto, do mortoneiro, do motorista, ou de um eletricista.
Atribuímos a eles, uma culpa que eles não têm.
Capital
Cultural – Até aqui já foram criadas algumas versões, inclusive, uma
que ao parece não é plausível que é a super-lotação. Isso faz sentido?
Cosenza -
A superlotação pode ter contribuído para o acidente, mas não foi a
causa. Trabalhamos exatamente para encontrar essa causa. Tudo leva a
crer que houve uma falha no sistema de freio Me surpreendeu declarações
que li nos jornais de que o bonde com o qual ocorreu o acidente diversas
vezes foi para a manutenção por conta de sapata de freio. Isso é muito
complicado, pois ou a sapata não era trocada por uma nova sapata ou a
sapata era de péssima qualidade. Não se troca sapata um dia sim e um dia
não. Se o bonde passou por tantas manutenções, temos que saber a origem
desta sapata, sua procedência e sua qualidade. É preciso ficar claro se
a sapata era ou não nova. Vimos no local do acidente que uma das
sapatas estava desgastada. Isso, porém, não justifica o acidente, pois
uma sapata desgastada não é o motivo para o que aconteceu se as outras
sapatas estavam novas. Tudo leva a crer que houve uma falha no sistema
de freagem. É isso que temos que apurar.
Capital Cultural – Faz sentido a argumentação dos moradores de que essa era uma tragédia anunciada?
Cosenza
– O bairro tem características próprias. Temos um relatório daquele
acidente de 2009, que vitimou aquela professora. Naquela ocasião e mesmo
antes disso, já alertávamos para os problemas que os bondes vinham
apresentando. Falamos que era preciso ordenar o bairro, acabar com
tantos estacionamentos que tira o gabarito no trajeto de percurso do
bonde. Falamos dos ônibus que andam em alta velocidade e sempre oferecem
perigo. O transporte principal em Santa Teresa tem que ser o bonde.
Essa questão de que era uma tragédia anunciada, de certa forma faz
sentido, pois se algo é anunciado e você não cuida, não faz a manutenção
necessária e não tem o zelo necessário, o que foi anunciado acaba
acontecendo.
Capital
Cultural – Neste primeiro de setembro os bondinhos completam 115 anos. O
tempo de vida útil, o desgaste podem ser fatores que colaboram para o
risco de acidentes?
Cosenza
- Independente da idade do equipamento, qualquer que seja o
equipamento, se ele tiver uma manutenção adequada, se as peças forem
repostas, se houver cuidados, este equipamento estará seguro. Este
argumento não justifica e nem procede. Não podemos sob nenhuma hipótese
culpar a idade do bonde. A idade do bonde é um fator que nos obriga a
termos mais cuidado. O bonde não é inseguro pela idade e sim pela falta
de manutenção. Há uma coisa que muitas pessoas insistem em não entender:
a discussão do bonde não pode se limitar apenas ao bonde. É preciso
zelar mais pelo bairro, limitar a velocidade dos carros que por lá
trafegam, olhar com mais atenção para os ônibus que deveriam andar em
baixa velocidade, evitar que caminhões com carga pesada transitem. Não
podemos pensar o bairro e o bonde apenas nos finais de semana para
turistas. Isso seria um crime contra a população. O bonde é um veículo
de passageiros e não apenas com finalidade turística. As pessoas pensam
que o bonde é uma extensão do bairro e sem os bondinhos Santa Teresa
perderia praticamente todo seu charme, beleza e encantamento.
Capital Cultural – A decisão do governador em colocar um interventor é razoável?
Cosenza –
Fico pensando qual será exatamente a função deste interventor. Se veio
para solucionar, para discutir com os moradores, com as entidades da
engenharia e as entidades representativas, tudo bem, acho válido e sua
presença poderá ser extremamente útil. Mas se veio para trazer fórmulas
prontas não vejo grandes vantagens. . Ele tem que dizer a que veio.
Capital Cultural – Exonerar o Júlio Lopes como muitos querem, resolveria alguma coisa?
Cosenza
- A discussão me parece vaga. Temos que questionar o seguinte:
existiram investimentos suficientes para quem fossem encontradas
soluções para os problemas que os bondes apresentam? Penso que essa é a
questão. Saber quem vai estar lá, se o Júlio Lopes, se o Rogério Onofre,
se o Pedro, o Manoel ou o João isso não cabe discutir e nem sei se vai
acrescentar alguma coisa. Não cabe ao CREA opinar quem será o
responsável, quem o governador vai colocar lá ou exonerar. Temos que
saber onde serão os investimentos, de que maneira serão feitos e se
estes investimentos possibilitarão a recuperação do sistema e segurança
para a população. Pense que essa é a discussão e não podemos perder este
foco. Não se pode botar a culpa em alguns funcionários que estão lá.
Todos sabemos, que os funcionários que trabalham nos bondes, exercem
suas funções dentro de um limite possível. Se fosse oferecido material e
condições para que esses profissionais fizessem uma boa manutenção, não
tenho dúvidas que eles fariam, pois são pessoas que amam o sistema de
bonde e não trabalham apenas por obrigação.
C
apital Cultural – Sobre a privatização, você acha necessária?
Cosenza –
Vamos fazer uma reflexão sobre o sistema de privatização. Não podemos
perder de vista que o único estado que privatizou o sistema rodoviário
foi o Rio de Janeiro. Nenhum outro estado partiu para essa alternativa
como solução. Se compararmos nossas duas maiores capitais que é São
Paulo e o Rio de Janeiro, vamos perceber diferenças substanciais. No
Rio, o sistema de transporte é privado e a sociedade vive se queixando e
sempre temos problemas das mais diversas ordens. Em São Paulo, além de
um ótimo serviço nos trens, o metro é uma referência de operação no
mundo inteiro. Temos que considerar que o metrô em São Paulo transporta
perto de 4 milhões de passageiros por mês. Temos que acabar com esse
delírio de que a privatização é a melhor solução, que resolve todos os
problemas. O privado não é melhor que o público. O que o Estado precisa é
criar mecanismos para que uma empresa de sua propriedade tenha
condições e possibilite condições para que seja realizado um bom
trabalho. Esta é a questão. A privatização não soluciona nada. O
governador tem que assumir a responsabilidade pelo bonde. E a Prefeitura
deveria ter um maior controle sobre os ônibus.
Capital Cultural – A privatização dos transportes e outros
serviços no Rio de Janeiro é meio perversa, pois as empresas que
conseguiram estas concessões exploram o serviço, mas o povo continua
pagando a conta.
Cosenza –
É uma verdade. Você privatizou o sistema de trens do Rio de Janeiro,
mas os investimentos continuam sendo realizados pelo Estado. A compra de
trens quem paga é o Estado. Se você privatiza você entende que a
responsabilidade pela administração e pelos custos é da empresa que
ganhou a concessão e assumiu o serviço, mas não é assim que funciona. O
estado continua pagando com dinheiro público os investimentos das
empresas privadas. O povo acaba sendo o grande beneficiado com esse
serviço, mas é ele quem esta pagando. Não critico a compra dos trens.
Questiono o fato de o estado usar o dinheiro público para atender o
interesse de empresas privadas. O serviço é público, mas a empresa é
privada. Se você privatizar o bonde, ou o Estado vai subsidiar a
passagem ou o povo não terá condições de pagar o preço desta passagem.
Será que este bonde será só para turista.
Capital Cultural – O bonde tem uma característica curiosa, pois
embora nossas autoridades partam do principio que o bonde é uma atração
turística e para turistas, sua finalidade principal é atender os
moradores.
Cosenza -
Nunca podemos perder de vista que os bondinhos se transformaram em um
dos principais símbolos da cidade e do país. O curioso é que, ao que
parece muitas pessoas não sabem, que o bondinho de Santa Teresa é o
único transporte de passageiro no Brasil com essa característica. Não
existe outro, é único. Todos os outros são turísticos. O que a sociedade
quer é um bonde que atenda a população. Percebo um grande equívoco
quando se fala do bondinho de Santa Teresa, pois parece que atende
somente aos turistas e à classe média do bairro. Isso não corresponde à
verdade, pois nestes dias que o bonde esta parado, observei, muitas
pessoas andando a pé, descendo as ladeiras para o trabalho a pé. Santa
Teresa é um bairro de classe média, mas é composto também por muita
gente pobre, por muitas comunidades, por pessoas que não podem pagar o
preço da passagem do ônibus. Enquanto os bondes não estiverem
circulando, o Governador do Estado deveria colocar o preço do ônibus
pelo mesmo preço do bonde.
Qual sua opinião sobre a Municipalização?
Cosenza –
Se a Municipalização acontecer para resolver os problemas com
investimentos, uma melhora na estrutura e o povo puder continuar andando
nos bondes, pode ser uma solução interessante. Não adianta o Município
apenas assumir o bonde. Antes de assumir, tem que dizer o que vai fazer,
como vai fazer e em que período de tempo vai fazer, qual será a tarifa
cobrada. É preciso, por exemplo, olhar com carinho para os funcionários
que dedicaram toda uma vida aos bondes. Esses funcionários sim, eles
sabem cuidar dos bondes. Penso que a discussão se o bonde será ou não
municipalizado é secundária. A questão é saber se as pessoas poderão
voltar a andar nos bondes de forma segura sem medo. Se a Prefeitura vier
para resolver, que venha. Acredito, entretanto que a pior solução é a
privatização.
Capital
Cultural – A recuperação dos bondes, que as autoridades chamam de VLT –
Veículos Leves Sobre Trilhos – e a comunidade os denominou de Bonde
Frankenstein, foi e continua sendo outro motivo de muita polêmica. A
adaptação dos bondes é um problema ou uma solução?
Cozensa
– Não sou contra a modernização desde que se mantenham as
características dos bondes. Antes de disponibilizar, de colocar em
circulação, é preciso que todos os testes sejam realizados e caso sejam
detectados problemas é preciso que sejam consertados. O que tenho visto
na imprensa, e essa é também uma critica recorrente dos moradores é que
os bondes adaptados desde que foram colocados em circulação apresentam
problemas, oferecem insegurança e medo. Deveríamos manter uma quantidade
de bondes antigos que sempre operaram no bairro e gradativamente
fazendo teste nos bondes adaptados antes de colocá-los em circulação.
Observo, por exemplo, e não se leva muito isso em consideração, o fato
de que a população de Santa Teresa cresceu muito e os bondes já não
atendem essa demanda. Talvez por isso tenhamos superlotação. Vamos
modernizar, mas colocar em operação só depois que for testada a
eficiência e a certeza de que é um bonde extremamente seguro. Os
funcionários reclamam, mas demonstram certo receio e muitos preferem se
calar, mas segundo eles, estes bondes precisam ser testados dentro da
realidade do bairro. Realizar testes em linha reta não resolve muita
coisa e nem garante nada. É preciso se testar esses novos bondes nas
ladeiras e nas condições adversas de Santa Teresa.
Capital Cultural – A cidade, o país e, principalmente nossos
políticos começam a pensar e a respirar a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Não causa certo temor ver uma das principais atrações turísticas da
cidade nas condições que se encontram.
Cosenza –
Se os bondinhos são tão necessários, se representam uma atração
turística e um transporte para passageiros do bairro, temos que pensar
esta questão de forma séria e buscarmos alternativas para o serviço. Se
não temos mais bondes antigos, vamos fabricar novos bondes com as
características dos bondes antigos. Isso é viável e possível. Nem sempre
a modernidade é sinônimo de progresso. Estamos trabalhando contra o
tempo, precisamos disso para ontem. Precisamos testar estes bondes,
proporcionar segurança para os moradores e para os turistas.
Capital
Cultural – Na condição de cidadão carioca, de uma pessoa que se
preocupa com a cidade, quando você olha para a situação dos bondes, qual
sua sensação?
Cosenza – No mais íntimo de mim sou tomado por um sentimento de tristeza e decepção.
O
bonde é um símbolo cultural da cidade. Faz parte da história de nossa
cidade. Com todo respeito que tenho pelo bonde do corcovado, mas não
existe nada como o Bondinho de Santa Teresa. Quando você liga a
televisão, todos os jornais têm como fundo uma imagem do bondinho. É um
símbolo da cidade. A imprensa começa a divulgar a licitação para uma
compra imensa de trens para a Super Via. Acho correto que se melhore o
transporte sobre trilho no Rio de Janeiro, mas se você pega a metade do
valor de apenas um trem, você recupera todo sistema de bondes. Lamento
profundamente esta situação, pois a recuperação de todo sistema de
bondes e, inclusive, o aumento do número de bondes, representa um
montante muito pequeno para o Estado. Destruir o bonde é destruir parte
da história do Rio de Janeiro. Não podemos ter uma tragédia com vítimas
para então pensarmos em fazermos melhorias nos bondes e pensarmos em
soluções para os bondes mesmo porque esta solução pode não ser a melhor.